O texto que aí vai não é meu. Poderia até ser pelo fato da
identificação, talvez com o “ser burro”, não sei, mas sei que é, antes de tudo, pela a linguagem e
poeticidade de Domingos de Oliveira, poeta, diretor, dramaturgo, ator e pessoa
a qual gosto muito. O texto não estava assim escrito em lugar nenhum, pelo
menos eu não o vi e nem o encontrei. Eu ouvi o próprio Domingos lendo, ou declamando,
para ser mais poético. Como se assim fosse um ditado, transcrevi, de tal feita
que, aos poucos que visualizam esta página, peço: perdoe-me as possíveis falhas, não sou bom de ouvidos. Como já disse,
o texto não é meu, capturei-o do blog de Domingos Oliveira. Estava lá,“Pensamento
2”, ouvi e resolvi postar aqui por parecer bom e já público. Espero que gostem da
ironia fina, da poesia como embrulho de bombons e da crítica que contorna todo o
pensamento do autor. Boa leitura!
Pensamento 2
A sociedade é constituída quase completamente por burros. Não
me leve a mal, claro que há médicos inteligentes, mas alguém duvida que a
maioria dos médicos seja burra? Convenhamos, os médicos são burros de um modo
geral. Os advogados, a maioria, a grande maioria, é burra. Os políticos, por
exemplo,... é melhor nem falar no assunto. Não vai nenhuma agressividade,
nenhuma, é apenas uma constatação.
Em todo grupo, comunidade, agrupamento, a maioria é burra. A
burrice é o contorno do desenho, a liga mestra do edifício. As pessoas são
burras, muito burras. É rara a inteligência, essa capacidade de associar
contextos distantes. Quando eu era menino, achava que todos eram inteligentes,
isso era uma burrice minha. As pessoas não são, as pessoas são muito burras e
isso é um fato da vida, esse é um fato da vida da qual nós devemos nos
reconciliar, senão não poderemos viver adequadamente na sociedade. As pessoas
são inacreditáveis, inimaginavelmente burras. É importantíssimo e urgente
afirmar que não vai aqui nenhum julgamento moral: os inteligentes não são
melhores que os burros, absolutamente, não são. Nem merecem mais, claro. Os
burros também são merecedores de paixão. A propósito, todo homem inteligente
tem por obrigação perceber o esplendouro do outro. Todo homem é esplêndido,
burro ou inteligente. Todo homem é esplendido, todo homem contém o universo.
Uma das primeiras obrigações da inteligência é reconhecer esse fato simples e
básico. Não se trata de um julgamento moral. Escusado igualmente observar que a
inteligência não tem nada a ver com a cultura, ou com o nível de informação de
cada um. Pelo contrário, em terrenos cultos, de modo geral, é encontrado um
índice de burrice estonteante. É o tipo tão conhecido que entende de tudo, tão
comum na nossa sociedade, entende de tudo, menos daquilo que é humano. Em
contra partida, verifica-se que a ignorância e a pobreza têm constituído um
campo fértil para o aparecimento das grandes almas. A propósito, alma é
sinônimo de inteligência.
É difícil conceituar a inteligência, porém é fácil reconhecer-lhes
alguns atributos. O primeiro deles é, sem dúvida, a humildade. A humildade é
sinônimo de inteligência. “O homem sábio sabe que não sabe”. Ao passo que o
burro é arrogante. Considera-se possuidor de algum saber e consequentemente
superior aos outros burros que sabem menos.
Atenção, o burro é competitivo e ele é perigoso. Ele compete,
ele julga, ele condena e muitas vezes ele mata. No entanto, com a inteligência,
acontece exatamente o contrário: a despeito de si mesma, ela ama. Mozart disse que
pra ser um gênio não basta ter talento nem inteligência, é preciso ter também
um grande amor. A propósito, amor é sinônimo de inteligência. O burro não ama.
Quem é inteligente sabe que é inteligente, não precisa lhe
dizer, sabe que é. Já o burro desconhece sua burrice. Isso seria um drama se
não fosse uma tragédia. Posto que o burro no fundo do seu ignorado esplendor
sente que lhe falta algo, algo que o inteligente possui e nesse momento advém
soberana a inveja, a inveja dos burros. Como se não bastasse ser diferente, o
burro passa a odiar o inteligente. No entanto, com a inteligência acontece
justo o contrário: ela sempre se reconhece. O homem inteligente não inveja e
sim se compraz, exulta quando ver brilhar uma inteligência igual ou maior que a
dele. Orienta todos os seus esforços no sentido de uma aproximação amorosa que
lhe permita desfrutar um pouco daquela luz do outro.
Os inteligentes, além de ter entre si um grande amor, uma
grande admiração, eles se plajeiam constantemente sem pudor. Eles não tentam ser
originais, eles sabem que eles são um só, um só acidente da natureza, ou terá
sido um recurso de emergência do qual a natureza lançou mão pra cuidar da
sobrevivência da espécie antes que os burros a destruam?
Concluindo, a imprensa é burra, a TV é burra, o esporte é
burro, a política é burra, quase tudo que é considerada importante na sociedade
atual, não é apenas desimportante, como é burra, trata-se do império da burrice
como outrora foi o império romano.
(Domingos de Oliveira)

Ufa! E eu que pensei que só eu era burra.... (kkkkk). Visto desse plano, me pergunto, será que a humanidade tem salvação? Pensando melhor, acho que Deus fez os burros com um propósito... Já que como o autor diz: Os inteligentes são um acidente da natureza.
ResponderExcluirGostei muito do texto. Excelente!
Parabéns pela postagem.
Quanto a nossa salvação, sei e você também, que por aqui passou alguns seres inteligentíssimos como Cristo, Ghandi, Siddharta Gautama, o Buda, e outros que deixaram um legado de sabedoria(amor)para que nós, meros mortais, pudéssemos apreendê-lo e melhorar nossas relações...Olhando o cenário em que nos encontramos, tendo em vista que tivemos os melhores mestres que Deus poderia dar, o futuro não me parece muito animador...O fato é que ainda não nos concientizamos do tamanho de nossa buricce.
ResponderExcluirEu também adorei esse texto quando ouvi pela primeira vez no filme os 8 Magnificos. Consegui cortar esse trecho do filme pra fazer uma postagem no meu canal no telegram, se inscreve lá pra curtir lá... @canalbozradejoel
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