2018
PERIODICIDADE DE ELEMENTOS DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA
NOS TEXTOS DE FICÇÃO DO ESCRITOR JOÃO BATISTA MACHADO, DELINEANDO A IMPORTÂNCIA
DESSA CULTURA PARA FORMAÇÃO CULTURAL CODOENSE
Valdemir
Guimarães Sousa
Resumo
O artigo presente se propõe
a quantificar a presença de elementos da cultura afro-brasileira, sobretudo no
que se refere aos aspectos religiosos, no livro “O Imaginário codoense”, capítulo
I - Essa Histórias, do escritor também codoense João Batista Machado, fazendo
um reflexão sobre a função da ficção como elemento formador da cultura de
melhoramento ou de deterioração de conceitos no que diz respeito a cultura
afro-brasileira. Para isso foi feita uma leitura sobre a bibliografia do autor,
além de consultas em artigos e obras afins que traçam uma ponte entre a ficção
e sua atuação no meio em que ela é produzida e consumida.
Palavras-chave
Cultura afro-brasileira,
Religião, Ficção, Melhoramento, Deterioração
1
INTRODUÇÃO
O presente
trabalho surgiu da necessidade de mostrar a frequência de elementos da cultura
afro-brasileira no que tange a religiosidade na obra “O Imaginário codoense”,
capítulo I- Essas Histórias, do Escritor codoense João Batista Machado,
historiador e pesquisador por natureza, revelando o papel da obra ficcional na
comunidade em que ela se insere, quando o elemento descrito na produção
literária pode ser abordo de maneira melhorativa, neutra ou pejorativo. Nesse
processo de pesquisa foi feita leitura do capítulo do livro já mencionado do
escritor codoense, além de literatura afins, artigos, resenhas, em que se
discorre sobre a arte, literatura e seu papel na sociedade.
O que se
pretende é revelar o poder da literatura ficcional local na formação ou
desconstrução de conceitos. Quando conceitos são elaborados sem a luz de uma
literatura vinculada com o discurso político engajador e de valorização da
cultura de povos, esses podem vir carregados de ideias preconceituosas, campo
fértil para nascer ideias taxativas de costumes como sendo de melhor ou pior cultura.
Tendo em sua maioria os povos mais pobres essa classificação última.
A
investigação vai revelar se o escrito de João Batista Machado (2012) pode
reforçar a ideia preconceituosa como é vista a cultura negra, no que tange sua
religiosidade, ou revelar outra imagem que não seja negativa, mas sim, de
valoração da cultura afro-brasileira.
2
DESENVOLVIMENTO
LITERATURA, ALÉM DE ENTRETENIMENTO, MEIO
SENSIBILIZADOR DE REALIDADES
O
valor da literatura para humanidade é incontestável, pois sua relação entre o
escrito (letra) e arte, funcionando como uma espécie de upgrade ao texto,
proporciona aos que dela se aproximam aprendizado de sua própria história,
amplia seu repertório em direção a fantasia, encontra reflexões sobre a
condição do ser humano, aproximando-se da filosofia, e tudo isso imbuído de uma
atmosfera, trabalhada com esmero e estética. Como dito anteriormente, não se
contesta a valoração da literatura a serviço do aprendizado, da reflexão ou tão
somente, e não menos importante, entretenimento à humanidade.
“A
poesia, enquanto expressão mimética, mantém essa função e reveste-se assim de
uma importância moral. O dever do poeta, diz Aristóteles, não é contar o que
aconteceu na realidade, mas o que poderia acontecer, por necessidade ou
probabilidade”. (Macedo, 2017) A poesia, interpretada aqui como Literatura, não
se limita a contar o que se passou na sociedade, cabendo, com propriedade, aos
historiadores, ela vai além disso, cria possíveis realidades, busca visões
diferenciadas para se contar enredos verídicos com holofotes imbuídos de lumes
da estética moderna ou de um tempo que o autor haja eficaz ou necessário. O
falar da literatura extrapola o tempo em que foi criado, por isso seu discurso
é forte e necessário para qualquer sociedade.
“Nesse
sentido, o texto literário introduz um universo que, por mais distanciado da
rotina, leva o leitor a refletir sobre seu cotidiano e a incorporar novas
experiências”. (cf. ISER, 1993 apud
ZILBERMAN, 2018). A literatura, lembrando Zilberman,
cumpre sua função social de fato quando leva o leitor a refletir sobre sua
realidade social, sobre o mundo em que está inserido. O leitor passa dessa
forma, se feita uma leitura política e ativa, a ser um agente transformador do
meio em que vive. Não perdendo de vista a função também de entretenimento dos
textos literários.
2.1
A
LITERATURA MARANHENSE ENGAJADA COM O DISCURSO DAS MINORIAS
Em
acordo com os pensadores de distintos Estados do Brasil e demais escritores que
extrapolam limites geográficos nacionais, grupos de lavradores da literatura de
expressão maranhense, nas suas distintas formas de expressão, ligados a
estética do belo, usaram sua escrita a serviço de uma política voltada para as
minorias. Temos como exemplo a escritora Maria Firmina, que por si, é própria
minoria representada, por ser mulher e negra, em meio a literatos, em sua
maioria, homens e brancos, discorre sobre a temática do negro e escravo no
Brasil, “O livro de que se lira está edição fac-similar é talvez a maior
raridade bibliográfica do Maranhão. Trata-se de romance escrito por mulher e
passou por ser o primeiro no Brasil de autoria feminina”. (H. A. 1975, Ursula).
Outros
escritores Maranhenses antes, e depois de Maria Firmina, também trabalharam
temáticas que refletisse o momento social e político desse república, tais
como, isso sem obedecer uma ordem cronológica,
Josué Montello, em sua propagada obra “Os tambores de São Luís”, Salgado
Maranhão, já citado no artigo “Caminhos da
Resistência Literária em Seis Poetas Negros Contemporâneos Brasileiros” de
Rosangela Sarteschi1, Ferreira Gullar, incansável cantador das minorias, isso só
para ilustrar alguns escritores que possuem como se fosse missão propor uma
reflexões sobre os personagens marginalizados ou excluídos que no processo de
mimese nos permite identificar seres também sem voz na sociedade
maranhense.
A
Literatura maranhense como, de um modo geral, a brasileira e universal permitem
numa análise, a princípio do fictício, fazer ponte com a realidade vigente,
levando o leitor a criar imagens, levantar hipóteses e se envolver de certa
forma com a situação política da qual o texto possa relacionar.
2.2
EM CODÓ, O
ESCRITOR
João
Batista Machado, filho de Codó, nascido em 24 de junho de junho de 1925,
falecido em 22 de março de 2016, produziu muito sobre sua cidade, publicado
teve apenas dois livros Codó, histórias do fundo do baú (1999) e Imaginário
codoense (2012). Porém, relata Prof. Carlos Gomes no artigo publicado Páginas
de Codó que o referido autor:
Participou das obras
literárias: “Antologia de Poetas”, da Nova Geração, compilada pelo poeta
Raimundo Araújo, “Antologia da Moderna Poesia Brasileira”, “Suspeita”, peça de
teatro; essas importantes obras foram prefaciadas por acadêmicos da Academia
Brasileira de Letras, como Álvaro Moreira e Aníbal Machado, dos quais era
grande amigo, incluindo-se também, Ledo Ivo e Alcides Pinto, poeta e
romancista, este, seu companheiro de república. (GOMES, 2013).
O seu leitor espera ainda outras obras a serem
publicadas, já que o escritor foi incansável em vida no registro e pesquisas
dos costumes, fatos relevantes da cidade, causos que envolvia toda a sociedade
codoenses.
Na
sua literatura publicada, tem-se duas obras que faz um estudo histórico, além
de desfilar enredos ficcionais fantásticos que estão presentes na cidade de
Codó. Traça sobre esse município sua história, conta o surgimento, passeia pela
formação de seu povo, cultura, ficção, reconta relatos sobre personagens
marcantes já falecidos e outros ainda vivos, relata estórias do imaginário e
ainda reproduz documentos, na visão do escritor, essências para história local
e do Brasil.
O
estudo presente quer mostrar o valor da ficção machadiana do Codó no que diz
respeito ao engajamento político, refletindo sobre as minorias, no caso em
questão, elementos da cultura afro brasileira nos que diz respeito a
religiosidade, revelado a consonância com a gêneses do pensamento literário, no
dizer de Zilberman, quando esse leva a refletir sobre o cotidiano e a
incorporar novas experiências.
2.3
RECORTES DO
IMAGINÁRIO CODOENSE
O
segundo livro do escritor codoense João Batista Machado, “O imaginário
codoense”, pulicado em 2012, objeto, aqui, principal desse estudo, é uma
sequência dos estudos feitos pelo escritor. No dizer de Mundicarmo Ferretti “É
um livro de narrativas e transcrições de histórias de Codó, ouvidas ou vividas
pelo pesquisador e escritor João Batista Machado”. (Machado, 2012). Embora feito
à luz das pesquisas científicas com citações de documentos essenciais para o
estudo da história do município codoense e o estado do Maranhão, percebe-se no
livro, intencionalmente posto pelo autor, um caldeamento de ficção e realidade,
cabendo ao público absorvê-lo de imediato ou filtra-lo se assim se convir. Mas
nunca menos importante pelo uso dessa técnica. O livro em destaque é dividido
em duas partes I- ESSAS HISTÓRIAS E RELATOS, no dizer do autor, a primeira
parte, ficcionárias, respaldadas no seu imaginário. Já a segunda parte,
Relatos, contendo episódios históricos vivenciados em Codó ou fora de seus
limites. (MACHADO, 2012).
Ambos
os livros estão à disposição de todos os interessados em histórias e estórias
de Codó, no momento, o que cabe ao estudo presente, é analisar a parte I. ESSAS
HISTÓRIAS do segundo livro, Imaginário codoense, mais precisamente as histórias
em que o negro e suas características são mencionadas, entra como personagem na
narrativa.
Na
parte I. ESSAS HISTÓRIAS tem-se dezoito (16) narrativas são elas: 1. O trem Fantasma; 2. O Lobisomem; 3. O túnel
dos Escravos – A Lei de nº 3.353, de 13 de maio de 1888; 4. Maria Rita e o
Porto das Serpentes; 5. A pedra Furada; 6. Jamir e Donga; 7. O Navio Fantasma; 8. Dona Teresinha
e suas Estórias – Couros Secos; 9. O Prefeito Caçador de Tesouros – O Ladino
Nicolau; 10. O Porto do Camundá; 11. O Porto de São Miguel; 12. A menina que o
Peixe Engoliu; 13. O banho dos
Urubus; 14. O melancólico Terminal de uma Fábrica; 15. Estórias de Zezé da Conceição – O
desconhecido – Catirica, Teco e Tenco – A pedra xenxém; 16. O encontro com o
Curupira
As
narrativas em destaque, de acordo com o que o estudo se propõem a fazer, são:
I. O túnel dos Escravos – A Lei de nº 3. 353, de
13 de maio de 1888
A narrativa
de o “Túnel dos escravos – A sanção da Lei Áurea” é um exemplo bem típico das
técnicas utilizadas nas narrativas inseridas no livro Imaginário codoense. Nela
há um misto de ficção com realidade. No início da história, brevemente, o
narrador conta a aventura de negros foragidos que se encontram à margem do rio
Codozinho, no intuito de abrigarem-se com os índios Guanarés e de desviarem dos
faros de cães, tiveram a ideia de cavar um túnel sob o leito do rio e assim
fizeram. Conseguiram chegar onde se propuseram a ir, embora fossem procurados
por seus donos, nunca foram localizados.
A outra
parte da história é mais descritiva na qual salienta-se leis municipais e
estaduais coibindo a fuga dos negros. Ressalta-se também a festividade dos
negros, suas danças, danças, o que eles denominavam de bate-cola, “convite a
dança a outros negros aquilombados”. (Machado, 2012. p.12). Encerra-se a
história relatando o dia do sansão da Lei Aurea.
II.
Maria Rita
e o Porto das Serpentes
A narrativa
trata de duas histórias curtas, como o interesse nesse trabalho é trazer
histórias ligadas a cultura negra, será resumida somente a primeira, Maria Rita.
Essa conta a história de Dona Maria Francisca, viúva, quebradeira de coco, que
encontra no mato, de onde tira seu sustento, uma criança de cinco anos de
idade. Imaginando ser enviada por Deus para lhe fazer companhia, levou para casa,
deu-lhe um nome, Maria Rita, e a educou. Aos quinze anos a moça era vistosa e
cheia de pretendentes. Engravida. Ao sentir as primeiras dores do parto,
refugia-se na mata, deu à luz uma criança morta, e falece logo em seguida. Dias
depois seu corpo é encontrada. A mãe providencia o sepultamento. O fantástico
aparece na narrativa com a personagem Dona Rosa, rezadeira, cumpridora de suas
obrigações aos seus santos da mata, essa ouve e ver Maria Rita ninando o filho
na queda d’água do Roncador. Tentou
contar o caso a amigas, mas essas descriam da conversa de Dona Rosa.
III. A pedra Furada
Nessa
história é narrada no misto de ficção e realidade o feito da mãe de santo Dona
Zefina, rezadeira especialista em mordidas de cobras. Dona Zefina fora chamada
para curar um camponês que havia sido picado nos arredores da Rua do mato, onde
ficava Pedra Furada, atrapalhando os que ali transitavam. O homem foi curado,
houve festa, reza, terços, o terreiro foi iluminado, atabaques esquentados,
santos da florestas baixaram. A rezadeira
aproveitou e lançou uma maldição à pedra. Depois dos céus e natureza
conspiraram a seu favor, apareceu na terra próxima a pedra Furada um buraco que
logo se encheu de água, motivando os moradores a retirarem a pedra do lugar,
prolongando dessa forma a rua. Depois de algumas discursões, vence a vontade
dos governantes, retira-se a pedra e surge a Rua Paraguai.
IV.
Jamir e
Donga
A história
narra a trajetória de Jamir, negra nascido em Mina e comprado aos 8 anos de
idade, foi criado na fazenda grande e ao 25 anos de idade obteve sua alforria.
Muda-se para Codó começa a trabalhar com carpintaria. Gostava ele de batuques e
terecôs. Apaixonou-se por uma portuguesa, Donga. Uma bruxa um dia vira o jovem
Jamir banhando no rio Codozinho e jurou que uma de suas filhas casaria com ele.
Certo dia a bruxa encontrou Donga a fez lhe acompanhar jogou a moça em águas
escuras e lançou-lhe um feitiço, viraria uma asquerosa serpente, que só seria
quebrado se essa fosse beijada por um efebo. Depois de muitos dias
desaparecida, Donga voltava a forma de mulher a noite para livrar-se da lama,
cantava modas tristes, em uma dessas noites Jamir foi até o água fria e
surpreendeu Donga, misto de gente e serpente, e beijou-a. O feitiço foi
quebrado. Ambos foram pedir proteção a Légua Bogi, aos santos afros, sob o som
de atabaque pedindo proteção aos orixás conseguiram paz. E foram felizes no
país de origem de Jamir.
V.
O porto do
Camundá
A história
traz como personagens José e Miguel, ambos vão a uma pescaria a convite do
primeiro. Caso o amigo recusasse José iria só, mas o convite foi aceito e
partiram. Como o primeiro lugar a irem não lhes rendeu nada, resolveram ir ao
porto do Camundá. Lugar normalmente evitado por ser perigoso e famoso em
histórias de assombrações. Haja visto o que acontecera a família Camundá,
tragados pelas águas e nunca encontrados. Os dois depois de passarem por
lugares já conhecidos pelo perigo, começam enfim a pescaria. Linha enganchada,
José mergulha para desprende-la, nas profundezas d’água, vê um preto sentado
pitando cachimbo. Já à tona, depois que conseguiu recuperar o fôlego fala ao
amigo que o preto que fumo, o que é feito imediatamente, corta-se o rolo de fumo
e lança-se n’água. A pecaria, depois, flui bem. No dia seguinte eles retornam
ás suas esposas felizes e com muitos peixes para elas e vizinhos.
O texto
encerra lembrando o caso da família Camundá e as homenagens prestadas a ela:
missas, ladainhas, terecôs iluminados, pontos entoados.
VI.
O navio
Fantasma
Texto
narrado em primeira pessoa discorre sobre a insônia do narrador que ganha a rua
na companhia de seu fiel cão Sônia. O interesse em destaca-lo é como o autor
descreve o uma das passagens no texto:
Ouvia-se à distância o cantar de “pontos” dos
“santos” dos terecôs. Pelas batidas dos atabaques, percebia-se que o terecô
estava enfezado, regado a cachaça. Muitas mulatas, negras, “negões” e muitos
santos arriados. O senhor da mata do Codó, seu Légua Bogi, não dispensava uma
boa pinga. Desce livre e solta pela garganta do seu “cavalo”. (MACHADO, 2012,
p.33)
VII. O
porto de São Miguel
A história
se passa no povoado de São Miguel, conhecido pelo porto do mesmo nome, João e
José saem para uma pescaria, antes ouvem recomendações da noiva de José,
Raimundinha, para não irem ao Porto de São Miguel. Ainda assim partem a
pecaria. Extasiam-se com a força espiritual do local. Já pronto para pescaria,
José é atraído pela imagem de uma bela mulher e sua bela voz em canções de amor
que saem de um juazeiro. Ao descer do juazeiro, ela enfeitiça José e o leva em
direção ao rio e desaparecem. João depois de despertar do torpor, foi para
casa, contou a esposa. Na manhã seguinte relata o fato a noiva do amigo e a outros
amigos. Raimundinha, a noiva, sabendo da desgraça que se abateu a José
encaminhou-se às águas do porto e igual ao noivo sumiu. O povoado São Miguel,
comovido, foi à procura do vigário que sugeriu falar com Bejamé, sabedor de
rezas, que por fim achou por bem procurar Luiza Caçote, bate tambores e recebe
encantados. Depois de entender a história, se dirigiu a local com os amigos.
Lá, fez os trabalhos, rezou, mergulhou, e depois de infindáveis horas traz
consigo Raimundinha radiante, José não retornou. Depois das recomendações à
Raimundinha para evitar banhos de rios, mar ou simples riacho, convidou a todos
a irem a sua casa rezarem em agradecimento aos santos protetores.
2.4
REFLEXÕES SOBRE O IMAGINÁRIO
As
narrativas resumidas acima são fictícias, embora embebidas das conversações do
escritor com pessoas da comunidade codoense, são contos, em sua maioria
fantásticos, e rápidos (Furini, 2009) que relatam enredos distintos. O ponto de
intersecção entre eles são os personagens negros que aparecem. Das dezoito narrativas (16) que fazem a
primeira parte do livro Imaginário codoense, pelo menos 07 (sete) são
mencionados traços típicos da cultura negra: comportamento, descrição de seus
cultos ou suas festa.
Na
primeira narrativa, descrita anteriormente, está presente a astúcia, coragem, a
não obediência ao sistema escravocrata. Logo em seguida, na segunda narrativa,
tem-se a personagem D. Rosa, rezadeira, comprometida com as obrigações
religiosas. Porém, o fator negativo dessa é a desconfiança que a comunidade tem
em relação a rezadeira. Na terceira, revela o poder da mãe de santo, D. Zefina,
capaz de interferir sobre as coisas vivas e inanimadas e a boa relação que essa
tem com a comunidade. Na quarta narrativa, tem-se Jamir um negro de Mina ligado
às tradições dos terreiros. Depois desse ser agraciado, agradece a Légua Bogi e
os santos afros. Já na quinta narrativa, é mencionados visagens de outro mundo
e as festas em homenagem aos mortos em Camundá nos terreiros. No sexto texto,
destaca-se as descrições dos pontos dos santos e das festas dos terreiros. Na
sétima narrativa, é revelado o prestígio da rezadeira Luiza Caçote e o seu
poder em trazer de volta a vida Raimundinha.
O
que se percebe é que nas narrativas descrita a cultura do negro, notavelmente
ao que se refere aos seus cultos religiosos, o autor destaca-a de maneira
positiva, valorizando suas práticas e quem as pratica. Os personagens, de uma
maneira geral, praticante dessa fé oriunda dos afros, são revelados com uma boa
imagem para os possíveis leitores. A narrativa que se devia um pouco é a
segunda que traz D. Rosa, mãe de santo que vê almas, porém não confiável às
suas amigas. Mas todas as outras, aqui relatadas, colocam o culto, as festas,
os santos orixás, como propiciadores de benfeitorias aos que neles professam a
fé.
A
partir dessas leitura é possível inferir sobre a visão do autor em relação ao
credo dos negros. Na contramão de muitos que desrespeitam a fé alheia, e sobre
tudo dos povos negros, perseguidos na sua fé desde muito tempo, como afirma o Artigo
22 da Lei nº 241, de 13 de setembro de 1848 – Código Penal de Codó:
“Toda
e qualquer pessoa que se propuser a curar feitiçarias, sendo livre pagará multa
de vinte mil reis, e sofrerá oito dias de prisão, e sendo escravo haverá
somente lugar a multa que será paga pelo senhor do escravo” (FERRETI,2001.
P.35)
Os
tempos passaram, a Lei acima caducou, mas o preconceito às práticas religiosas
dos negros, seus festins e costumes persiste. Por isso, livros que enaltecem, e
nas entrelinhas ou diretamente, exigem respeito às crenças dos povos são bem
vindos e podem fazer a diferença em sociedades ainda carente de respeitos entre
seus pares.
3
CONCLUSÃO
Depois
da leitura dos textos delineados para construção do artigo, à luz de uma
fundamentação teórica substancial, o que se pode concluir é que os textos
inclusos na I parte do livro Imaginário codoense do escritor João Batista
Machado é que a ficção de machado conspira para uma leitura esclarecida sobre
os cultos religiosos dos negros.
Se
a literatura tem o poder realmente transformador daqueles que dela se aproxima,
certamente os leitores da escrita machadiana de expressão maranhense se
deleitarão e se sentirão tocados a respeitarem as diferentes manifestações
culturais, sobretudo, as dos componentes da cultura afro, e/ou afro-brasileira,
no que diz respeito as manifestações religiosas.
O
que se sabe é que o preconceito nunca vai acabar, pois a ignorância sempre
persiste e renova-se com olhos e cada vez mais brilhantes, mas aqueles que
buscam o conhecimento podem livrar-se dessa doença da humanidade. A literatura,
a arte, a ciência são caminhos a percorrer e nessas três estradas é possível
encontrar os escritos de João Batista Machado.
Portanto,
a leitura desse “Imaginário codoense”, aqui apontado nesse artigo, como seu
outro livro “Codó, histórias do fundo do baú”, levam a pontos comuns, o
respeito às culturas, às manifestações religiosas, festas e expressões do povo
negro. Existem outros elementos que podem ser tratados em outros estudos.
REFERÊNCIAS
MACHADO,
João Batista. Codó, histórias do fundo
do baú. Codó: Fact/Uema,1999.
MACHADO,
João Batista. O imaginário codoense.
Codó: Nova Expansão Gráfica, 2012.
FERRETTI,
Mundicarmo. “Encantaria de Barba Soeira”
:Codó, capital da magia negra?.São Paulo: Siciliano, 2001.
ZILBERMAN,
Regina. A leitura e o ensino da
literatura. São Paulo: Contexto:1988
CAMARGO,
Soraia Haack et al. A arte produzindo
transformação e humanização. Dispo nível
em: <www.univel.br/sites/default/.../arte_produzindo_transformacao
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março 2018.
SARTESCHIL, Rosangela. Caminhos da Resistência Literária em Seis
Poetas Negros Contemporâneos Brasileiros. Disponível em: < www.revistas.usp.br./viaatlantica/aticle/view/
99824>
acesso em março 2018.
SILVA, Clécia
Assunção. A Literatura Maranhense como
fonte no Ensino de História e Literatura Afro-Brasileira: análise e propostas
didáticas sobre “Os Tambores de São Luís” de Josué Montello. 149 f.
Dissertação (Mestrado) – História, Ensino e Narrativa Universidade estadual do
Maranhão, 2017.
ZILBERMAN, Regina.O papel da literatura na escola. Disponivel
em < http://www. Revis tas.usp.br/viaatlantica/article/view/50376/54486>
acesso em março de 2018.
FIRMINA, Maria
dos Reis. Ursula. San Luíz:
Tipografia Progresso, 1859.
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