quinta-feira, 17 de maio de 2018


2018



PERIODICIDADE DE ELEMENTOS DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA NOS TEXTOS DE FICÇÃO DO ESCRITOR JOÃO BATISTA MACHADO, DELINEANDO A IMPORTÂNCIA DESSA CULTURA PARA FORMAÇÃO CULTURAL CODOENSE


Valdemir Guimarães Sousa





Resumo

O artigo presente se propõe a quantificar a presença de elementos da cultura afro-brasileira, sobretudo no que se refere aos aspectos religiosos, no livro “O Imaginário codoense”, capítulo I - Essa Histórias, do escritor também codoense João Batista Machado, fazendo um reflexão sobre a função da ficção como elemento formador da cultura de melhoramento ou de deterioração de conceitos no que diz respeito a cultura afro-brasileira. Para isso foi feita uma leitura sobre a bibliografia do autor, além de consultas em artigos e obras afins que traçam uma ponte entre a ficção e sua atuação no meio em que ela é produzida e consumida.  

Palavras-chave
Cultura afro-brasileira, Religião, Ficção, Melhoramento, Deterioração


1   INTRODUÇÃO

O presente trabalho surgiu da necessidade de mostrar a frequência de elementos da cultura afro-brasileira no que tange a religiosidade na obra “O Imaginário codoense”, capítulo I- Essas Histórias, do Escritor codoense João Batista Machado, historiador e pesquisador por natureza, revelando o papel da obra ficcional na comunidade em que ela se insere, quando o elemento descrito na produção literária pode ser abordo de maneira melhorativa, neutra ou pejorativo. Nesse processo de pesquisa foi feita leitura do capítulo do livro já mencionado do escritor codoense, além de literatura afins, artigos, resenhas, em que se discorre sobre a arte, literatura e seu papel na sociedade.
O que se pretende é revelar o poder da literatura ficcional local na formação ou desconstrução de conceitos. Quando conceitos são elaborados sem a luz de uma literatura vinculada com o discurso político engajador e de valorização da cultura de povos, esses podem vir carregados de ideias preconceituosas, campo fértil para nascer ideias taxativas de costumes como sendo de melhor ou pior cultura. Tendo em sua maioria os povos mais pobres essa classificação última.
A investigação vai revelar se o escrito de João Batista Machado (2012) pode reforçar a ideia preconceituosa como é vista a cultura negra, no que tange sua religiosidade, ou revelar outra imagem que não seja negativa, mas sim, de valoração da cultura afro-brasileira.


2   DESENVOLVIMENTO

LITERATURA, ALÉM DE ENTRETENIMENTO, MEIO SENSIBILIZADOR DE REALIDADES

O valor da literatura para humanidade é incontestável, pois sua relação entre o escrito (letra) e arte, funcionando como uma espécie de upgrade ao texto, proporciona aos que dela se aproximam aprendizado de sua própria história, amplia seu repertório em direção a fantasia, encontra reflexões sobre a condição do ser humano, aproximando-se da filosofia, e tudo isso imbuído de uma atmosfera, trabalhada com esmero e estética. Como dito anteriormente, não se contesta a valoração da literatura a serviço do aprendizado, da reflexão ou tão somente, e não menos importante, entretenimento à humanidade.
“A poesia, enquanto expressão mimética, mantém essa função e reveste-se assim de uma importância moral. O dever do poeta, diz Aristóteles, não é contar o que aconteceu na realidade, mas o que poderia acontecer, por necessidade ou probabilidade”. (Macedo, 2017) A poesia, interpretada aqui como Literatura, não se limita a contar o que se passou na sociedade, cabendo, com propriedade, aos historiadores, ela vai além disso, cria possíveis realidades, busca visões diferenciadas para se contar enredos verídicos com holofotes imbuídos de lumes da estética moderna ou de um tempo que o autor haja eficaz ou necessário. O falar da literatura extrapola o tempo em que foi criado, por isso seu discurso é forte e necessário para qualquer sociedade.
“Nesse sentido, o texto literário introduz um universo que, por mais distanciado da rotina, leva o leitor a refletir sobre seu cotidiano e a incorporar novas experiências”. (cf. ISER, 1993 apud  ZILBERMAN, 2018). A literatura, lembrando Zilberman, cumpre sua função social de fato quando leva o leitor a refletir sobre sua realidade social, sobre o mundo em que está inserido. O leitor passa dessa forma, se feita uma leitura política e ativa, a ser um agente transformador do meio em que vive. Não perdendo de vista a função também de entretenimento dos textos literários.   

2.1    A LITERATURA MARANHENSE ENGAJADA COM O DISCURSO DAS MINORIAS
Em acordo com os pensadores de distintos Estados do Brasil e demais escritores que extrapolam limites geográficos nacionais, grupos de lavradores da literatura de expressão maranhense, nas suas distintas formas de expressão, ligados a estética do belo, usaram sua escrita a serviço de uma política voltada para as minorias. Temos como exemplo a escritora Maria Firmina, que por si, é própria minoria representada, por ser mulher e negra, em meio a literatos, em sua maioria, homens e brancos, discorre sobre a temática do negro e escravo no Brasil, “O livro de que se lira está edição fac-similar é talvez a maior raridade bibliográfica do Maranhão. Trata-se de romance escrito por mulher e passou por ser o primeiro no Brasil de autoria feminina”. (H. A. 1975, Ursula).
Outros escritores Maranhenses antes, e depois de Maria Firmina, também trabalharam temáticas que refletisse o momento social e político desse república, tais como, isso sem obedecer uma ordem cronológica,  Josué Montello, em sua propagada obra “Os tambores de São Luís”, Salgado Maranhão, já citado no artigo “Caminhos da Resistência Literária em Seis Poetas Negros Contemporâneos Brasileiros” de Rosangela Sarteschi1, Ferreira Gullar, incansável cantador das minorias, isso só para ilustrar alguns escritores que possuem como se fosse missão propor uma reflexões sobre os personagens marginalizados ou excluídos que no processo de mimese nos permite identificar seres também sem voz na sociedade maranhense. 
A Literatura maranhense como, de um modo geral, a brasileira e universal permitem numa análise, a princípio do fictício, fazer ponte com a realidade vigente, levando o leitor a criar imagens, levantar hipóteses e se envolver de certa forma com a situação política da qual o texto possa relacionar.

2.2    EM CODÓ, O ESCRITOR
João Batista Machado, filho de Codó, nascido em 24 de junho de junho de 1925, falecido em 22 de março de 2016, produziu muito sobre sua cidade, publicado teve apenas dois livros Codó, histórias do fundo do baú (1999) e Imaginário codoense (2012). Porém, relata Prof. Carlos Gomes no artigo publicado Páginas de Codó que o referido autor:
Participou das obras literárias: “Antologia de Poetas”, da Nova Geração, compilada pelo poeta Raimundo Araújo, “Antologia da Moderna Poesia Brasileira”, “Suspeita”, peça de teatro; essas importantes obras foram prefaciadas por acadêmicos da Academia Brasileira de Letras, como Álvaro Moreira e Aníbal Machado, dos quais era grande amigo, incluindo-se também, Ledo Ivo e Alcides Pinto, poeta e romancista, este, seu companheiro de república. (GOMES, 2013).

 O seu leitor espera ainda outras obras a serem publicadas, já que o escritor foi incansável em vida no registro e pesquisas dos costumes, fatos relevantes da cidade, causos que envolvia toda a sociedade codoenses.
Na sua literatura publicada, tem-se duas obras que faz um estudo histórico, além de desfilar enredos ficcionais fantásticos que estão presentes na cidade de Codó. Traça sobre esse município sua história, conta o surgimento, passeia pela formação de seu povo, cultura, ficção, reconta relatos sobre personagens marcantes já falecidos e outros ainda vivos, relata estórias do imaginário e ainda reproduz documentos, na visão do escritor, essências para história local e do Brasil.
O estudo presente quer mostrar o valor da ficção machadiana do Codó no que diz respeito ao engajamento político, refletindo sobre as minorias, no caso em questão, elementos da cultura afro brasileira nos que diz respeito a religiosidade, revelado a consonância com a gêneses do pensamento literário, no dizer de Zilberman, quando esse leva a refletir sobre o cotidiano e a incorporar novas experiências.

2.3    RECORTES DO IMAGINÁRIO CODOENSE
O segundo livro do escritor codoense João Batista Machado, “O imaginário codoense”, pulicado em 2012, objeto, aqui, principal desse estudo, é uma sequência dos estudos feitos pelo escritor. No dizer de Mundicarmo Ferretti “É um livro de narrativas e transcrições de histórias de Codó, ouvidas ou vividas pelo pesquisador e escritor João Batista Machado”. (Machado, 2012). Embora feito à luz das pesquisas científicas com citações de documentos essenciais para o estudo da história do município codoense e o estado do Maranhão, percebe-se no livro, intencionalmente posto pelo autor, um caldeamento de ficção e realidade, cabendo ao público absorvê-lo de imediato ou filtra-lo se assim se convir. Mas nunca menos importante pelo uso dessa técnica. O livro em destaque é dividido em duas partes I- ESSAS HISTÓRIAS E RELATOS, no dizer do autor, a primeira parte, ficcionárias, respaldadas no seu imaginário. Já a segunda parte, Relatos, contendo episódios históricos vivenciados em Codó ou fora de seus limites. (MACHADO, 2012).
Ambos os livros estão à disposição de todos os interessados em histórias e estórias de Codó, no momento, o que cabe ao estudo presente, é analisar a parte I. ESSAS HISTÓRIAS do segundo livro, Imaginário codoense, mais precisamente as histórias em que o negro e suas características são mencionadas, entra como personagem na narrativa.
Na parte I. ESSAS HISTÓRIAS tem-se dezoito (16) narrativas são elas:  1. O trem Fantasma; 2. O Lobisomem; 3. O túnel dos Escravos – A Lei de nº 3.353, de 13 de maio de 1888; 4. Maria Rita e o Porto das Serpentes; 5. A pedra Furada; 6. Jamir e Donga; 7. O Navio Fantasma; 8. Dona Teresinha e suas Estórias – Couros Secos; 9. O Prefeito Caçador de Tesouros – O Ladino Nicolau; 10. O Porto do Camundá; 11. O Porto de São Miguel; 12. A menina que o Peixe Engoliu; 13. O banho dos Urubus; 14. O melancólico Terminal de uma Fábrica; 15. Estórias de Zezé da Conceição – O desconhecido – Catirica, Teco e Tenco – A pedra xenxém; 16. O encontro com o Curupira   
As narrativas em destaque, de acordo com o que o estudo se propõem a fazer, são:

I.      O túnel dos Escravos – A Lei de nº 3. 353, de 13 de maio de 1888

A narrativa de o “Túnel dos escravos – A sanção da Lei Áurea” é um exemplo bem típico das técnicas utilizadas nas narrativas inseridas no livro Imaginário codoense. Nela há um misto de ficção com realidade. No início da história, brevemente, o narrador conta a aventura de negros foragidos que se encontram à margem do rio Codozinho, no intuito de abrigarem-se com os índios Guanarés e de desviarem dos faros de cães, tiveram a ideia de cavar um túnel sob o leito do rio e assim fizeram. Conseguiram chegar onde se propuseram a ir, embora fossem procurados por seus donos, nunca foram localizados.
A outra parte da história é mais descritiva na qual salienta-se leis municipais e estaduais coibindo a fuga dos negros. Ressalta-se também a festividade dos negros, suas danças, danças, o que eles denominavam de bate-cola, “convite a dança a outros negros aquilombados”. (Machado, 2012. p.12). Encerra-se a história relatando o dia do sansão da Lei Aurea.

II.    Maria Rita e o Porto das Serpentes

A narrativa trata de duas histórias curtas, como o interesse nesse trabalho é trazer histórias ligadas a cultura negra, será resumida somente a primeira, Maria Rita. Essa conta a história de Dona Maria Francisca, viúva, quebradeira de coco, que encontra no mato, de onde tira seu sustento, uma criança de cinco anos de idade. Imaginando ser enviada por Deus para lhe fazer companhia, levou para casa, deu-lhe um nome, Maria Rita, e a educou. Aos quinze anos a moça era vistosa e cheia de pretendentes. Engravida. Ao sentir as primeiras dores do parto, refugia-se na mata, deu à luz uma criança morta, e falece logo em seguida. Dias depois seu corpo é encontrada. A mãe providencia o sepultamento. O fantástico aparece na narrativa com a personagem Dona Rosa, rezadeira, cumpridora de suas obrigações aos seus santos da mata, essa ouve e ver Maria Rita ninando o filho na queda d’água  do Roncador. Tentou contar o caso a amigas, mas essas descriam da conversa de Dona Rosa.

III.  A pedra Furada

Nessa história é narrada no misto de ficção e realidade o feito da mãe de santo Dona Zefina, rezadeira especialista em mordidas de cobras. Dona Zefina fora chamada para curar um camponês que havia sido picado nos arredores da Rua do mato, onde ficava Pedra Furada, atrapalhando os que ali transitavam. O homem foi curado, houve festa, reza, terços, o terreiro foi iluminado, atabaques esquentados, santos da florestas baixaram.  A rezadeira aproveitou e lançou uma maldição à pedra. Depois dos céus e natureza conspiraram a seu favor, apareceu na terra próxima a pedra Furada um buraco que logo se encheu de água, motivando os moradores a retirarem a pedra do lugar, prolongando dessa forma a rua. Depois de algumas discursões, vence a vontade dos governantes, retira-se a pedra e surge a Rua Paraguai.  

IV.    Jamir e Donga

A história narra a trajetória de Jamir, negra nascido em Mina e comprado aos 8 anos de idade, foi criado na fazenda grande e ao 25 anos de idade obteve sua alforria. Muda-se para Codó começa a trabalhar com carpintaria. Gostava ele de batuques e terecôs. Apaixonou-se por uma portuguesa, Donga. Uma bruxa um dia vira o jovem Jamir banhando no rio Codozinho e jurou que uma de suas filhas casaria com ele. Certo dia a bruxa encontrou Donga a fez lhe acompanhar jogou a moça em águas escuras e lançou-lhe um feitiço, viraria uma asquerosa serpente, que só seria quebrado se essa fosse beijada por um efebo. Depois de muitos dias desaparecida, Donga voltava a forma de mulher a noite para livrar-se da lama, cantava modas tristes, em uma dessas noites Jamir foi até o água fria e surpreendeu Donga, misto de gente e serpente, e beijou-a. O feitiço foi quebrado. Ambos foram pedir proteção a Légua Bogi, aos santos afros, sob o som de atabaque pedindo proteção aos orixás conseguiram paz. E foram felizes no país de origem de Jamir.

V.      O porto do Camundá

A história traz como personagens José e Miguel, ambos vão a uma pescaria a convite do primeiro. Caso o amigo recusasse José iria só, mas o convite foi aceito e partiram. Como o primeiro lugar a irem não lhes rendeu nada, resolveram ir ao porto do Camundá. Lugar normalmente evitado por ser perigoso e famoso em histórias de assombrações. Haja visto o que acontecera a família Camundá, tragados pelas águas e nunca encontrados. Os dois depois de passarem por lugares já conhecidos pelo perigo, começam enfim a pescaria. Linha enganchada, José mergulha para desprende-la, nas profundezas d’água, vê um preto sentado pitando cachimbo. Já à tona, depois que conseguiu recuperar o fôlego fala ao amigo que o preto que fumo, o que é feito imediatamente, corta-se o rolo de fumo e lança-se n’água. A pecaria, depois, flui bem. No dia seguinte eles retornam ás suas esposas felizes e com muitos peixes para elas e vizinhos.
O texto encerra lembrando o caso da família Camundá e as homenagens prestadas a ela: missas, ladainhas, terecôs iluminados, pontos entoados.

VI.    O navio Fantasma

Texto narrado em primeira pessoa discorre sobre a insônia do narrador que ganha a rua na companhia de seu fiel cão Sônia. O interesse em destaca-lo é como o autor descreve o uma das passagens no texto:
Ouvia-se à distância o cantar de “pontos” dos “santos” dos terecôs. Pelas batidas dos atabaques, percebia-se que o terecô estava enfezado, regado a cachaça. Muitas mulatas, negras, “negões” e muitos santos arriados. O senhor da mata do Codó, seu Légua Bogi, não dispensava uma boa pinga. Desce livre e solta pela garganta do seu “cavalo”. (MACHADO, 2012, p.33)




VII.   O porto de São Miguel


A história se passa no povoado de São Miguel, conhecido pelo porto do mesmo nome, João e José saem para uma pescaria, antes ouvem recomendações da noiva de José, Raimundinha, para não irem ao Porto de São Miguel. Ainda assim partem a pecaria. Extasiam-se com a força espiritual do local. Já pronto para pescaria, José é atraído pela imagem de uma bela mulher e sua bela voz em canções de amor que saem de um juazeiro. Ao descer do juazeiro, ela enfeitiça José e o leva em direção ao rio e desaparecem. João depois de despertar do torpor, foi para casa, contou a esposa. Na manhã seguinte relata o fato a noiva do amigo e a outros amigos. Raimundinha, a noiva, sabendo da desgraça que se abateu a José encaminhou-se às águas do porto e igual ao noivo sumiu. O povoado São Miguel, comovido, foi à procura do vigário que sugeriu falar com Bejamé, sabedor de rezas, que por fim achou por bem procurar Luiza Caçote, bate tambores e recebe encantados. Depois de entender a história, se dirigiu a local com os amigos. Lá, fez os trabalhos, rezou, mergulhou, e depois de infindáveis horas traz consigo Raimundinha radiante, José não retornou. Depois das recomendações à Raimundinha para evitar banhos de rios, mar ou simples riacho, convidou a todos a irem a sua casa rezarem em agradecimento aos santos protetores. 


2.4 REFLEXÕES SOBRE O IMAGINÁRIO

As narrativas resumidas acima são fictícias, embora embebidas das conversações do escritor com pessoas da comunidade codoense, são contos, em sua maioria fantásticos, e rápidos (Furini, 2009) que relatam enredos distintos. O ponto de intersecção entre eles são os personagens negros que aparecem.  Das dezoito narrativas (16) que fazem a primeira parte do livro Imaginário codoense, pelo menos 07 (sete) são mencionados traços típicos da cultura negra: comportamento, descrição de seus cultos ou suas festa.
Na primeira narrativa, descrita anteriormente, está presente a astúcia, coragem, a não obediência ao sistema escravocrata. Logo em seguida, na segunda narrativa, tem-se a personagem D. Rosa, rezadeira, comprometida com as obrigações religiosas. Porém, o fator negativo dessa é a desconfiança que a comunidade tem em relação a rezadeira. Na terceira, revela o poder da mãe de santo, D. Zefina, capaz de interferir sobre as coisas vivas e inanimadas e a boa relação que essa tem com a comunidade. Na quarta narrativa, tem-se Jamir um negro de Mina ligado às tradições dos terreiros. Depois desse ser agraciado, agradece a Légua Bogi e os santos afros. Já na quinta narrativa, é mencionados visagens de outro mundo e as festas em homenagem aos mortos em Camundá nos terreiros. No sexto texto, destaca-se as descrições dos pontos dos santos e das festas dos terreiros. Na sétima narrativa, é revelado o prestígio da rezadeira Luiza Caçote e o seu poder em trazer de volta a vida Raimundinha.
O que se percebe é que nas narrativas descrita a cultura do negro, notavelmente ao que se refere aos seus cultos religiosos, o autor destaca-a de maneira positiva, valorizando suas práticas e quem as pratica. Os personagens, de uma maneira geral, praticante dessa fé oriunda dos afros, são revelados com uma boa imagem para os possíveis leitores. A narrativa que se devia um pouco é a segunda que traz D. Rosa, mãe de santo que vê almas, porém não confiável às suas amigas. Mas todas as outras, aqui relatadas, colocam o culto, as festas, os santos orixás, como propiciadores de benfeitorias aos que neles professam a fé.
A partir dessas leitura é possível inferir sobre a visão do autor em relação ao credo dos negros. Na contramão de muitos que desrespeitam a fé alheia, e sobre tudo dos povos negros, perseguidos na sua fé desde muito tempo, como afirma o Artigo 22 da Lei nº 241, de 13 de setembro de 1848 – Código Penal de Codó:
“Toda e qualquer pessoa que se propuser a curar feitiçarias, sendo livre pagará multa de vinte mil reis, e sofrerá oito dias de prisão, e sendo escravo haverá somente lugar a multa que será paga pelo senhor do escravo” (FERRETI,2001. P.35)
Os tempos passaram, a Lei acima caducou, mas o preconceito às práticas religiosas dos negros, seus festins e costumes persiste. Por isso, livros que enaltecem, e nas entrelinhas ou diretamente, exigem respeito às crenças dos povos são bem vindos e podem fazer a diferença em sociedades ainda carente de respeitos entre seus pares. 



3   CONCLUSÃO
Depois da leitura dos textos delineados para construção do artigo, à luz de uma fundamentação teórica substancial, o que se pode concluir é que os textos inclusos na I parte do livro Imaginário codoense do escritor João Batista Machado é que a ficção de machado conspira para uma leitura esclarecida sobre os cultos religiosos dos negros.
Se a literatura tem o poder realmente transformador daqueles que dela se aproxima, certamente os leitores da escrita machadiana de expressão maranhense se deleitarão e se sentirão tocados a respeitarem as diferentes manifestações culturais, sobretudo, as dos componentes da cultura afro, e/ou afro-brasileira, no que diz respeito as manifestações religiosas.  
O que se sabe é que o preconceito nunca vai acabar, pois a ignorância sempre persiste e renova-se com olhos e cada vez mais brilhantes, mas aqueles que buscam o conhecimento podem livrar-se dessa doença da humanidade. A literatura, a arte, a ciência são caminhos a percorrer e nessas três estradas é possível encontrar os escritos de João Batista Machado.
Portanto, a leitura desse “Imaginário codoense”, aqui apontado nesse artigo, como seu outro livro “Codó, histórias do fundo do baú”, levam a pontos comuns, o respeito às culturas, às manifestações religiosas, festas e expressões do povo negro. Existem outros elementos que podem ser tratados em outros estudos.
REFERÊNCIAS

MACHADO, João Batista. Codó, histórias do fundo do baú. Codó: Fact/Uema,1999.
MACHADO, João Batista. O imaginário codoense. Codó: Nova Expansão Gráfica, 2012.
FERRETTI, Mundicarmo. “Encantaria de Barba Soeira” :Codó, capital da magia negra?.São Paulo: Siciliano, 2001.
ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Contexto:1988
CAMARGO, Soraia Haack et al. A arte produzindo transformação e humanização. Dispo nível  em: <www.univel.br/sites/default/.../arte_produzindo_transformacao _e_humanizacao    .pdf >. Acesso em março 2018.
SARTESCHIL, Rosangela. Caminhos da Resistência Literária em Seis Poetas Negros Contemporâneos Brasileiros. Disponível em: < www.revistas.usp.br./viaatlantica/aticle/view/
99824> acesso em março 2018.
SILVA, Clécia Assunção. A Literatura Maranhense como fonte no Ensino de História e Literatura Afro-Brasileira: análise e propostas didáticas sobre “Os Tambores de São Luís” de Josué Montello. 149 f. Dissertação (Mestrado) – História, Ensino e Narrativa Universidade estadual do Maranhão, 2017.
ZILBERMAN, Regina.O papel da literatura na escola. Disponivel em < http://www. Revis tas.usp.br/viaatlantica/article/view/50376/54486> acesso em março de 2018.

FIRMINA, Maria dos Reis. Ursula. San Luíz: Tipografia Progresso, 1859.




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