sábado, 14 de janeiro de 2012


Uma análise desnecessária

                                            Valdemir Guimarães Sousa

Ouvi esses dias a belíssima canção de Gilberto Gil “Preciso aprender a só ser”, interpretada pelo mesmo no disco Gil Luminoso, ótimo disco por sinal. No álbum, está registrado bons momentos do compositor baiano. Difícil foi fazer a seleção devido ao imenso repertório de qualidade que esse cantor e poeta possui.
 Mas ouvindo a musica em questão, Preciso aprender a só ser, impossível não relacioná-la de imediato com a outra bela canção “Preciso aprender a ser só” de Paulo Sergio Valle e Marcos Valle. Essa última, a conheci na voz de Elis Regina. A intenção, quando Gil compôs a sua música, realmente era essa, creio, parafrasear a primeira, conquanto, substanciar outras sensações, sons e sentimentos.
A paráfrase, “reescritura de um texto já existente, uma espécie de ‘tradução’ dentro da própria língua”, do título é confirmada com a canção em si. A composição funciona como uma espécie de samba resposta comum a compositores cariocas de décadas passadas. A resposta do compositor baiano veio à altura da primeira, tão bela quanto à dos irmãos Valle. 
Afora os adjetivos verdadeiros que abraçam as duas composições, como a lírica emblemática, por exemplo, algo as diferencia. A forma de organização, desenvolvimento do tema, o tom, a intensidade dos sentimentos colocados na canção, por exemplo, e algo mais que poderemos ver adiante.

Preciso aprender a ser só

A letra da canção “Preciso aprender a ser só”, composta por Sergio Valle em 1965, está organizada em uma única estrofe de 15 versos, lembrando um soneto, composição de 14 versos. Encontramos rimas que podemos classificá-las, quanto à posição, em misturadas; tonicidade, aguda ou masculina; sonoridade, perfeita e imperfeita; e por final, valor, pobre: 

“Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver”

“Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus


“Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou”
                 
                           Rima imperfeita

 Além das rimas propriamente ditas, existe outro tipo, nos versos, conhecidas como eco:

“Poder dormir sem sentir teu calor”

“Que a saudade existe e se vem é tão triste”

“E eu preciso aprender a ser só”

Esse processo é muito usual nas canções populares ou em versos modernos, haja vista o poema abaixo de Paulo Leminski.

atrasos do acaso
cuidados
que não quero mais

o que era pra vir
veio tarde
e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz
         ( Poema de Paulo Leminski )

                    A canção popular é um gênero, segundo Ulhôa (1999), composto por letra e melodia que carrega uma relação dialógica entre essas duas características de forma que interferem no próprio gênero, dotando-o de uma linguagem verbal e outra musical. Mas a canção, se bem trabalhada, pode ir além do próprio gênero, ganhando o status de poesia, “gênero” Maior que, em si, carrega sua própria musicalidade, desobrigando-se de ser acompanhada por alguma melodia para que se perceba a música implícita no texto.  O texto de Sergio Valle, em análise, vem marcado fortemente por figuras de sonoridades que dão fluidez ao texto, tornando-o próprio para leitura oral, mesmo sem o acompanhamento de música, típico das canções populares. 

 Figuras como assonância:

“Ah, se eu te pudesse fazer entender”
                                             
 Aliteração

“E eu preciso aprender a ser 
Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi  um sonho e passou


Quanto às funções do texto, são utilizadas pelo autor pelo menos três funções de linguagem, além da poética, para afirmar o quanto que o eu lírico sofre muito com a perda ou a ausência da amada. Ele tenta sensibilizá-la disso, de forma que ela compadeça-se e que possa voltar para o que eles eram antes, um par.
Bem no intróito do poema, o autor utiliza-se da função conativa, centrada no “tu”, no outro, na tentativa de sensibiliza - lá.

“Ah, se eu te pudesse fazer entender
 Sem teu amor eu não posso viver
 Que sem nós dois o que resta sou eu”

Depois ele utiliza da função emotiva, centrada nele.

“Eu assim tão só
  E eu preciso aprender a ser só”

Logo em seguida, Sergio Valle recorre à linguagem denotativa, outra forma de argumento, mas com mesmo intuito de comover a pessoa amada que o seu sofrimento não é à toa, nasce do melhor sentimento, o amor.

“Ah, o amor
Quando é demais, ao findar leva a paz”

                   No decorrer do texto ele volta para emotiva.

 “Me entreguei sem pensar”

                   E depois volta para conativa. Literalmente, apela, desespera-se, invoca até a figura de Deus.

“Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo”

O arremate é com a função emotiva de forma que sensibilize de vez a amada, mostrando a ela que o eu lírico pode ir até as últimas consequências em nome do amor que lhe aperta peito, que ele pode ir ao ápice, a maior das provas, e das perdas, morrer de amor.

“Eu morro pensando no Nosso amor”

O texto de Sergio Valle é lírico e belíssimo. Faz-nos por instantes lembrarmo-nos dos sentimentos exacerbados dos românticos da segunda geração. A ideia do escapismo, desconsideração da realidade, e a visão da solução dos problemas sendo a morte; a ideia ratificada da solidão, a dilatação de seus sentimentos como se o seu fosse sempre o maior e único, isso tudo é vivo no texto. A intensificação do advérbio “tão” amplifica o status de solidão. Não é somente só, é “tão só”, e isso é ser mais do que sozinho. É uma solidão sofrida.

“ Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só”

Preciso aprender a ser só é uma canção do amor triste, sofrido, doloroso e quase incurável. E ela é bela por ser assim, por achar uma água boa e fria, ainda que no fundo do poço. Não é um poema de salvação, de louvor ao amor, antes o contrário, embora seja isso também amor, e quem pode afirmar que se perder de amor também não é bom, não é se encontrar?


Preciso aprender a só ser

O texto de Gil é composto por quatro estrofes, as três primeiras, com quatro versos cada e na última estrofe, sete versos. As rimas que aparecem são, quanto à posição, misturadas, já que algumas são emparelhadas e já outras cruzadas; tonicidade, aguda ou feminina, grave ou masculina; sonoridade, perfeita; e por final, valor, pobres e ricas: 

“É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer”

“É tanta coisa que eu fico sem jeito
  Sou eu sozinho e esse nó no peito”

Ecos também são encontrados, é uma marca, como já mencionado antes, dos poemas modernos.

“O que cantar, como andar, onde ir”

 “É só do coração dizer não quando a mente”

A metáfora, figura própria dos textos poéticos, além da forma usual, aparece em forma de personificação.

“Sou eu sozinho e esse nó no peito”
                                  
“É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer”
                        Personificação

A função poética está em todo o texto, fazendo-o diferente, próprio para o deleite de ser ouvido em forma de canção. Na composição de Gil, nessa especificamente, a melodia fala muito com a letra, relacionam-se harmoniosamente, casam-se, de forma que os possíveis significados da letra salientam-se decisivamente ao serem cantados juntos.
Outra função que percebemos, e de forma enfática, é a conativa. Nas quatro estrofes primeiras, centra-se no ouvinte, no leitor, no público, dirigindo-se diretamente a ele através de um substantivo vago, indefinido, indeterminado, “gente”.

“Sabe, gente”

O autor recorre à emotiva, subjetiva em poucos versos

“Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder”

“Eu sei que no fundo o problema é só da gente”

Ao contrário do texto de Sergio Valle, o eu lírico criado por Gil não tenta comover nenhuma amada, ele dirige-se a um público.  Enfoca coisas práticas da vida, ou sugere, e isso é percebido quando o autor faz uso dos verbos, remetendo a ações, “cantar, andar, ir, dizer, calar e querer”. 

Não sei julgar se bom ou ruim, mas quando nesse texto o eu lírico é emotivo, ele tenta se resguardar de suas emoções. Por serem subjetivas, entendo assim, próprias do seu “eu” e os outros, “gente”, não participarem de sua dor, por que cada um tem a sua, carrega-a individualmente. Ele, eu lírico, não a expõe, não escancara a sua dor, ou tonifica como no texto de Sergio Valle, antes, guarda-a para si, para que ele a resolva sozinho. Não dramatiza como sendo sua dor única e maior que a de todos.   

“Sou eu sozinho e esse nó no peito
                                       Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder”

                                      “Eu sei que no fundo o problema é só da gente”

Ao contrário da composição dos Valle, Gil afirma a razão, o controle das emoções exacerbadas, a não dramatização de sentimentos tão comuns a todos. “Só ser” conspira a favor da vida, a favor da vida que segue, se ergue sem se entregar a qualquer emoção. Preciso aprender a só ser é uma canção anti-fossa, sem desprezar, é claro, o aprendizado que se tem nos momentos difíceis.    

As composições aqui revisadas descartam qualquer espécie de análise para que se perceba a poesia e o teor lírico presente nelas. E creio que de novo nesse olhar sobre elas, pouca novidade há. As duas composições existem e permanecem sem que uma dependa musicalmente da outra. Ambas tem vidas próprias, embora uma veia musical as uma. O traço de intertextualidade é presente, a paráfrase inicial as aproxima, no entanto, cada qual segue seu rumo próprio, emocionando, tocando, comovendo e erguendo cada ouvinte/leitor da boa arte.         


Preciso aprender a só ser
(Gilberto Gil) 

Sabe, gente
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer

Sabe,  gente
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder

Sabe,  gente
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer

E quando escutar um samba-canção
Assim como
Eu Preciso Aprender a Ser Só
Reagir
E ouvir
O coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser"


Preciso Aprender A Ser Só
    (Marcos e Paulo Sergio Valle)

Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
Que sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou
Ah, o amor
Quando é demais, ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem é tão triste
Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor


REFERÊNCIA

11/01/2012





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