Uma análise desnecessária
Valdemir Guimarães Sousa
Ouvi esses dias a belíssima canção de
Gilberto Gil “Preciso aprender a só ser”, interpretada pelo mesmo no
disco Gil Luminoso, ótimo disco por sinal. No álbum, está registrado bons
momentos do compositor baiano. Difícil foi fazer a seleção devido ao imenso
repertório de qualidade que esse cantor e poeta possui.
Mas ouvindo a musica em questão, Preciso aprender a só ser, impossível não relacioná-la de
imediato com a outra bela canção “Preciso aprender a ser só” de Paulo Sergio Valle e Marcos Valle.
Essa última, a conheci na voz de Elis Regina. A intenção, quando Gil compôs a
sua música, realmente era essa, creio, parafrasear a primeira, conquanto,
substanciar outras sensações, sons e sentimentos.
A paráfrase, “reescritura de um texto já existente,
uma espécie de ‘tradução’ dentro da própria língua”, do título é confirmada com
a canção em si. A composição funciona como uma espécie de samba resposta comum
a compositores cariocas de décadas passadas. A resposta do compositor baiano
veio à altura da primeira, tão bela quanto à dos irmãos Valle.
Afora os adjetivos verdadeiros que abraçam
as duas composições, como a lírica emblemática, por exemplo, algo as
diferencia. A forma de organização, desenvolvimento do tema, o tom, a
intensidade dos sentimentos colocados na canção, por exemplo, e algo mais que
poderemos ver adiante.
Preciso
aprender a ser só
A letra da canção “Preciso aprender a
ser só”, composta por Sergio
Valle em 1965, está organizada em uma única estrofe de 15 versos, lembrando um
soneto, composição de 14 versos. Encontramos rimas que podemos classificá-las,
quanto à posição, em misturadas; tonicidade, aguda ou masculina; sonoridade,
perfeita e imperfeita; e por final, valor, pobre:
“Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver”
“Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus”
“Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou”
Rima imperfeita
Além das rimas propriamente ditas,
existe outro tipo, nos versos, conhecidas como eco:
“Poder dormir sem sentir teu calor”
“Que a saudade existe e se vem é tão triste”
“E eu preciso aprender a ser só”
Esse processo é muito usual nas canções
populares ou em versos modernos, haja vista o poema abaixo de Paulo Leminski.
atrasos do acaso
cuidados
que
não quero mais
o
que era pra vir
veio
tarde
e
essa tarde não sabe
do
que o acaso é capaz
( Poema de Paulo Leminski )
A canção popular é um gênero, segundo Ulhôa (1999), composto por letra e
melodia que carrega uma relação dialógica entre essas duas características de
forma que interferem no próprio gênero, dotando-o de uma linguagem verbal e
outra musical. Mas a canção, se bem trabalhada, pode ir além do próprio gênero,
ganhando o status de poesia, “gênero” Maior que, em si, carrega sua própria
musicalidade, desobrigando-se de ser acompanhada por alguma melodia para que se
perceba a música implícita no texto. O texto de Sergio Valle, em análise,
vem marcado fortemente por figuras de sonoridades que dão fluidez ao texto,
tornando-o próprio para leitura oral, mesmo sem o acompanhamento de música,
típico das canções populares.
Figuras como assonância:
“Ah, se eu te pudesse fazer entender”
Aliteração
“E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou”
Quanto às funções do texto, são utilizadas
pelo autor pelo menos três funções de linguagem, além da poética, para afirmar
o quanto que o eu lírico sofre muito com a perda ou a ausência da amada. Ele
tenta sensibilizá-la disso, de forma que ela compadeça-se e que possa voltar
para o que eles eram antes, um par.
Bem no intróito do poema, o autor
utiliza-se da função conativa, centrada no “tu”, no outro, na tentativa de
sensibiliza - lá.
“Ah,
se eu te pudesse fazer entender
Sem
teu amor eu não posso viver
Que
sem nós dois o que resta sou eu”
Depois ele utiliza da função emotiva,
centrada nele.
“Eu assim tão só
E
eu preciso aprender a ser só”
Logo em seguida, Sergio Valle recorre à
linguagem denotativa, outra forma de argumento, mas com mesmo intuito de
comover a pessoa amada que o seu sofrimento não é à toa, nasce do melhor
sentimento, o amor.
“Ah, o amor
Quando é demais, ao findar leva a paz”
No decorrer do texto ele volta para emotiva.
“Me entreguei sem pensar”
E depois volta para conativa.
Literalmente, apela, desespera-se, invoca até a figura de Deus.
“Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo”
O arremate é com a função emotiva de forma
que sensibilize de vez a amada, mostrando a ela que o eu lírico pode ir até as
últimas consequências em nome do amor que lhe aperta peito, que ele pode ir ao
ápice, a maior das provas, e das perdas, morrer de amor.
“Eu morro pensando no Nosso amor”
O texto de Sergio Valle é lírico e
belíssimo. Faz-nos por instantes lembrarmo-nos dos sentimentos exacerbados dos
românticos da segunda geração. A ideia do escapismo, desconsideração da
realidade, e a visão da solução dos problemas sendo a morte; a ideia ratificada
da solidão, a dilatação de seus sentimentos como se o seu fosse sempre o maior
e único, isso tudo é vivo no texto. A intensificação do advérbio “tão”
amplifica o status de solidão. Não é somente só, é “tão só”, e isso é ser mais
do que sozinho. É uma solidão sofrida.
“ Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só”
Preciso aprender a ser só é uma canção do amor triste, sofrido,
doloroso e quase incurável. E ela é bela por ser assim, por achar uma água boa
e fria, ainda que no fundo do poço. Não é um poema de salvação, de louvor ao
amor, antes o contrário, embora seja isso também amor, e quem pode afirmar que
se perder de amor também não é bom, não é se encontrar?
Preciso aprender a só ser
O texto de Gil é composto por quatro
estrofes, as três primeiras, com quatro versos cada e na última estrofe, sete
versos. As rimas que aparecem são, quanto à posição, misturadas, já que algumas
são emparelhadas e já outras cruzadas; tonicidade, aguda ou feminina, grave ou
masculina; sonoridade, perfeita; e por final, valor, pobres e ricas:
“É
tanta coisa pra gente saber
O
que cantar, como andar, onde ir
O
que dizer, o que calar, a quem querer”
“É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito”
Ecos também são encontrados, é uma marca,
como já mencionado antes, dos poemas modernos.
“O que cantar,
como andar, onde ir”
“É só do coração dizer não quando a mente”
A metáfora, figura própria dos textos
poéticos, além da forma usual, aparece em forma de personificação.
“Sou eu sozinho e esse nó no peito”
“É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer”
Personificação
A função poética está em todo o texto,
fazendo-o diferente, próprio para o deleite de ser ouvido em forma de canção.
Na composição de Gil, nessa especificamente, a melodia fala muito com a letra,
relacionam-se harmoniosamente, casam-se, de forma que os possíveis significados
da letra salientam-se decisivamente ao serem cantados juntos.
Outra função que percebemos, e de forma
enfática, é a conativa. Nas quatro estrofes primeiras, centra-se no ouvinte, no
leitor, no público, dirigindo-se diretamente a ele através de um substantivo
vago, indefinido, indeterminado, “gente”.
“Sabe, gente”
O autor recorre à emotiva, subjetiva em
poucos versos
“Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra
esconder”
“Eu sei que no fundo o problema é só da
gente”
Ao contrário do texto de Sergio Valle, o
eu lírico criado por Gil não tenta comover nenhuma amada, ele dirige-se a um
público. Enfoca coisas práticas da vida, ou sugere, e isso é percebido
quando o autor faz uso dos verbos, remetendo a ações, “cantar, andar, ir,
dizer, calar e querer”.
Não sei julgar se bom ou ruim, mas quando
nesse texto o eu lírico é emotivo, ele tenta se resguardar de suas emoções. Por
serem subjetivas, entendo assim, próprias do seu “eu” e os outros, “gente”, não
participarem de sua dor, por que cada um tem a sua, carrega-a individualmente.
Ele, eu lírico, não a expõe, não escancara a sua dor, ou tonifica como no texto
de Sergio Valle, antes, guarda-a para si, para que ele a resolva sozinho. Não
dramatiza como sendo sua dor única e maior que a de todos.
“Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder”
“Eu sei que no fundo o problema é só da gente”
Ao contrário da composição dos Valle, Gil
afirma a razão, o controle das emoções exacerbadas, a não dramatização de
sentimentos tão comuns a todos. “Só ser” conspira a favor da vida, a favor da
vida que segue, se ergue sem se entregar a qualquer emoção. Preciso aprender a só ser é uma canção anti-fossa, sem desprezar,
é claro, o aprendizado que se tem nos momentos
difíceis.
As composições aqui revisadas descartam
qualquer espécie de análise para que se perceba a poesia e o teor lírico
presente nelas. E creio que de novo nesse olhar sobre elas, pouca novidade há.
As duas composições existem e permanecem sem que uma dependa musicalmente da
outra. Ambas tem vidas próprias, embora uma veia musical as uma. O traço de
intertextualidade é presente, a paráfrase inicial as aproxima, no entanto, cada
qual segue seu rumo próprio, emocionando, tocando, comovendo e erguendo cada
ouvinte/leitor da boa arte.
Preciso aprender a só ser
(Gilberto Gil)
Sabe,
gente
É
tanta coisa pra gente saber
O
que cantar, como andar, onde ir
O
que dizer, o que calar, a quem querer
Sabe,
gente
É
tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou
eu sozinho e esse nó no peito
Já
desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder
Sabe,
gente
Eu
sei que no fundo o problema é só da gente
É
só do coração dizer não quando a mente
Tenta
nos levar pra casa do sofrer
E
quando escutar um samba-canção
Assim
como
Eu
Preciso Aprender a Ser Só
Reagir
E
ouvir
O
coração responder:
"Eu
preciso aprender a só ser"
Preciso
Aprender A Ser Só
(Marcos e Paulo Sergio Valle)
Ah,
se eu te pudesse fazer entender
Sem
teu amor eu não posso viver
Que
sem nós dois o que resta sou eu
Eu
assim tão só
E
eu preciso aprender a ser só
Poder
dormir sem sentir teu calor
A
ver que foi só um sonho e passou
Ah,
o amor
Quando
é demais, ao findar leva a paz
Me
entreguei sem pensar
Que
a saudade existe e se vem é tão triste
Vê,
meus olhos choram a falta dos teus
Estes
teus olhos que foram tão meus
Por
Deus entenda que assim eu não vivo
Eu
morro pensando no nosso amor
REFERÊNCIA
http://www.jornaldepoesia.jor.br/pl.html#eu 10/01/2012
http://www.gilbertogil.com.br/ 10/01/2012
11/01/2012
http://www.paulosergiovalle.com.br/ 10/01/2012
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