terça-feira, 14 de junho de 2011

A valsa

                                                                                                   
                                                                                                    Aí, tal o mar, faz-se diferença em se                                                                                                                                                                                                                      banhar, no se deixar levar pelas ondas.

                  Era como se fosse uma atriz que se preparava para entrar em cena. No quarto, em seu cantinho de sempre, ladeada por mil cremes para os pés, mãos, pernas e seios, asseava-se demoradamente. Suas mãos pequenas, dedinhos finos e negros, umedecidos por um leite agradável, deslizavam pelas pernas, em pelos loiros, num vai-e-vem delicado, dedicado, pausado para novas investidas no leite branco com cheiro de ervas, de plantas indecifráveis. No ambiente, a luz que lhe banhava era branda, pouca e calma. Da sala deslizava uma valsa sensata e melodiosa. Ela ainda na sua rotina de mulher que se prepara para matar de paixão, ou, então, morrer de raiva do homem que lhe amaria. 
                   Ela era quase toda sem pelos, quase toda. Pernas e braços, pelos loiros, assaz; já a visão em torno do sexo, puro volume, ou de suas axilas lisas, revelavam todo o trabalho, o zelo que ela tinha consigo. Nua e quase toda sem pelos.
                   E tal maravilha ali no quarto preparando-se para noite, mais uma noite de uma mulher casada. Um ano de casada. Planos de ter filhos, só bem mais tarde, quando estivesse mais arranjada; emprego certo, casa boa e vida segura.
                   O esposo, na sala, embala-se numa valsa, fuma um cigarrinho não vendido em tabacarias. Descansa do dia cansativo, da lida, do corre-corre das capitais que fazem mais mal que homens bem sucedidos. O cigarro à mão, uma cerveja ao lado e uma fumaça impregnando o ar da sala, do apartamento, motivo de reclamações dos condôminos próximos, o chamavam descaradamente de maconheiro, mau exemplo para todas as famílias que se agrupavam naquele prédio de classe média. Ainda assim, embriagado pela cerveja ou pela erva, ele conseguia captar o cheiro que exala do quarto. Ela reclamava do cigarro, censurava-o para que parasse, pois não suporta aquele odor. Ele apenas curte, curte o seu reclamar, e o seu cheiro que dali mesmo ele sente, suas narinas dilatavam-se.
                   Mais tarde, ele chega-se até o quarto e tal, mas ela finge não  o ouvir chegando. Finge não sentir aquele odor que ela tanto detesta, como também, não sentir seus dedos e mãos deslizarem pelos seus braços e pernas peludos, pela barriga, seios e, como sempre, descerem de repente até seu sexo volumoso e sem proteção.
                   E tá a alma, e corpos juntos, colados sentindo-se. Volume contra volume. O breu do quarto agora os banha, os cobre. Da sala ainda se ouve um leve compasso valsado, já no quarto, outro compasso, às vezes binário, ternário e outros davam ritmo àquela noite impar de um dia tórrido e comum do centro daquela cidade perdida do nordeste brasileiro. 


Valdemir Guimarães
                                     Teresina, 10 de abril de 2009     

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