Jamir estava pronto para exercer a sua profissão: confecção de móveis, portas e janelas para as novas casas construídas, mas ele não era de ferro, gostava de um batuque e de um terecô. Não bebia água-ardente, gostava mesmo era de dançar com uma boa dançarina. Tinha as suas preferidas.
Aconteceu que indo aos festejos de São Sebastião, num sítio à beira do Codozinho, enamorou-se de uma jovem de cabelos longos e castanhos, ondulados, filha de um português com uma negra escrava de Angola, chamava-se Donga.
No fundo da mata do Codó morava uma bruxa com duas filhas paupérrimas em beleza física. Desdentadas, olhos vazados, possuíam um mau hálito constante, escorria da boca das bruxinhas uma baba pegajosa, que atraia moscas, besouros e outros insetos. Moças feias sem atrativos, moradoras em uma loca ao pé de um morro. Alimentavam-se de frutos do mato e de caças apreendidas em arapucas. Exalavam mau cheiro.
A bruxa havia conhecido Jamir quando este tomava banho no rio Codozinho. Jurou aos espíritos da mata, das águas e das pedras que Jamir casaria com uma de suas filhas. Trabalharia neste sentido. Usaria os seus poderes de magia negra.
O jovem frequentando uma roda de tambor de mina, conheceu Constança, uma das filhas da bruxa. Enfeitou-se para impressionar Jamir que não lhe deu atenção. Jamir estava acompanhado de Donga, divertiu-se bastante, dançou a punga, deu umbigadas na namorada, trocaram afagos e beijos. Constança, renegada a plano inferior, retirou-se da festa, os seus olhos vazados ficaram vermelhos de tanto chorar, via ao longe a silhueta de Jamir.
A bruxa, mesmo assim, não desistiu das suas intenções casamenteiras. Certo dia, passando pela Lagoa Negra, próxima à Água Fria, viu Donga. Aproximou-se e disse: “Bom dia, jovem, vais tomar banho nesta lagoa imunda? Sei de um lugar, onde as águas são mais límpidas e frescas, vem comigo”.
Donga animou-se com o convite, deu braço à bruxa amparando-a do pedregulho que dificulta o caminho. Chegando lá, lugar mais profundo da lagoa, num movimento rápido, a bruxa jogou Donga naquelas águas escuras, impenetráveis à luz do sol. Bradando a seguinte maldição: “Com os poderes da magia negra, virarás uma serpente asquerosa, venenosa, peçonhenta. Voltarás ao teu estado normal quando fores beijada, desejada por um efebo, quebrarás o teu encantamento”. No mesmo momento, houve um grande estrondo nas profundezas das águas. Donga foi tragada por um grande redemoinho. A bruxa ria, soltava gargalhadas infernais. Pronunciava palavras mágicas e maldições, tomou sua vassoura voadora e se foi soltando sons como uma gralha perseguida por um temido e carniceiro gavião. Chegando à caverna, com ar de vencedora, narrou às filhas o acontecido. Riram muito da desgraça da jovem.
O desaparecimento inesperado de Donga foi muito comentado na Vila, não havia indícios que orientasse a sua procura. Conjecturas e hipóteses eram as mais variadas. Codozinho, Itapicuru, Água Fria, as Lagoas Negra e dos Pajeleiros, Morro do Cão e o Riacho Saco foram varridos e explorados na procura da moça. Desesperado, Jamir almejava encontrar, pelo menos o cadáver de sua amada.
No verão, a Lagoa Negra tornava-se um ponto lamacento, cercado de palmeiras de babaçu, de buritis e de ingazeiras secas. Os moradores das imediações da Lagoa fizeram uma vala até o riacho da Água Fria, no sentido de escoar aquela fedentina.
À noite, Donga se dirigia ao riacho Água Fria, a fim de se lavar da lama e lá permanecia até altas horas, sentada numa grande pedra a se pentear e a cantar modinhas tristes. Neste momento, tomava a forma humana. Retornava ao aspecto de asqueroso ofídio, com a aproximação de alguém. Desaparecia.
Em uma noite de belo luar, Donga se encontrava em cima da Pedra Redonda, e cantava as suas canções revestidas de uma tristeza langorosa. Nesta noite, Jamir vinha de uma festa no Alto da Fábrica, pensando na sua amada. Quando se preparava para atravessar as águas mornas do riacho, ouviu uma voz maviosa que emitia sons de uma canção romântica. Aguçou os ouvidos, parou e procurou descobrir a dona de tão bela voz.
O vento farfalhava nas folhas das palmeiras e levava aquele canto a confundir-se com a serenata dolente das águas do riacho. A canção misteriosa continuava a enfeitar aquela noite de luar.
Jamir intrigado olhou para a grande Pedra Redonda, destacava-se das outras pela sua dimensão e formato. Admirado viu que lá se encontrava a sua jovem namorada. O susto foi grande, deu um espetacular salto em direção à pedra. A jovem jogou-se nas águas, recolhendo-se como serpente ao lamaçal da Lagoa.
Jamir desesperado gritava o nome de sua amada. Consolava-o a certeza de que se encontrava viva. Sofrendo, talvez de algum encantamento maldoso.
Sabia que um dia tudo voltaria ao normal, o encanto seria quebrado. Depois de muito pensar decidiu que ficaria de alcateia todas as noites no mesmo horário da aparição. E assim procedeu.
Noite de lua cheia. Céu estrelado, brisa amena no mês de abril. A lua parecia estática na imensidade da abóbada celestial. Jamir tomou banho, trocou de roupa, perfumou-se e saiu levando a certeza que a beleza radiosa daquela noite devolveria-lhe a sua Donga. Rumou para a Água Fria, cheio de esperança. Escondeu-se entre as árvores, ouvidos atentos. Ficou admirando o balet dos peixinhos sobre as águas do riacho, pareciam que executavam danças coreografadas pelos sons dos tambores do terecô de dona Sinhá, que se localizava ali perto, mas sempre atento à pedra grande e redonda. Como uma aparição encantada, surgiu do seio das águas a bela Donga. Sentou-se sobre a pedra e começou à luz da lua a cantar as suas melodias enredadas de estórias de princesas encantadas, presas na furna de um dragão.
O negro mina deu um salto em direção à pedra. Jogou-se em cima de sua eleita, que reagiu instintivamente àquela surpresa. O jovem apaixonado enlaçou-a em seus braços beijando-a. Donga, metade serpente, metade gente, reconheceu seu amor. Deixando-se ficar presa nos braços do homem amado.
As águas da Água Fria agitaram-se acompanhadas de um grande silvo, subiram às ribanceiras. Da Pedra Redonda, saíram tufos de fumaça formando figuras desconhecidas, indefinidas que se dissolviam na doce brisa que acariciava os cabelos da jovem. A Pedra Redonda suspensa no espaço, numa autêntica levitação se deslocara, perdeu o equilíbrio e caiu nos lajeados lodosos transformando-se em pó.
Uma voz rouquenha dizia: “Estou morrendo, sem os poderes da magia negra”. Nisto, apareceu uma serpente volumosa, inerte, boiando rumo ao Itapicuru.
Jamir e Donga, estratificados diante do espetáculo inesperado, permaneciam unidos, abraçados, boquiabertos, assustados pelo que presenciavam.
De repente, antes da hora grande nos terreiros de terecô, os atabaques batiam mais forte, a vibração dos guias eram maiores. Os pontos dos “santos” evocados ecoavam no silêncio da noite.
Colados os corpos, os amantes resolveram ir ao terreiro pedir proteção a Légua Bogi. Após pedir a benção aos “santos” afros, arriados em seus “cavalos”, o céu cobriu-se de nuvens escuras prenunciando um grande temporal. Relâmpagos alumiavam a escuridão da noite, um estrondoso trovão amedrontou ainda mais os participantes da seita afro-brasileira. Os “santos” subiram deixando os seus “cavalos” apavorados. No céu apareceu uma mancha de fogo, atravessada pela vassoura da bruxa.
Mãe Sinhá reuniu os “cavalos” e depois de uma longa explanação pediu que atabaqueiros batessem os seus atabaques com mais firmeza e fé, a fim de chamar de volta os orixás.
As notícias, as últimas, de Jamir e de Donga são escassas. Sabe-se, no entanto, que residem em Benin. Jamir virou empresário, montou uma fábrica de móveis. Encheu a casa de filhos. Donga tornou-se uma mãe carinhosa. Salve os novos aguidás.
João Batista Machado
Escritor codoense, autor do livro Histórias do Fundo do Baú.
Esse texto foi extraído do livro, ainda inédito, Imaginário Codoense.