quarta-feira, 29 de junho de 2011

A seu João Batista

86 anos
O que há na vida que vale à pena...
que valha a pena tecer.
uma cidade não dita não é uma cidade
é um amontoado de gente sem nome, sem fome de conhecer a si.

De um baú saiu um rosto, um povo, uma cidade
                                                                   provinciana. 
há na memória de um velho penseiroso
capitaneador  de luz , mesmo em meio ao  mofo, além do cansaço,
um ser que ainda abisma uma verde vontade de seguir.   

sexta-feira, 24 de junho de 2011

... A lágrima clara sobre a pele escura

a tristeza bate e não faz alarde, se instala
recolhe-se e colhe tudo  o que há.
Ela é senhora nas horas de samba, som e festa.
Contesta o cantador, o dançarino, a guitarra a ruir.
Mas só quem sofre ou sofreu  sabe o dom de criar.
amar é...febre, som, riso e dor.
Viva, Caetano!  

segunda-feira, 20 de junho de 2011

João Batista Machado e eu

Em Codó, há senhores e senhoras cheios de histórias e estórias.
João Batista Machado conta em prosa, baseado em pesquisas,
fatos, momentos; enobrece pessoas e construções que singularizam uma cidade, sua cidade, a encantadora
Codó.

sábado, 18 de junho de 2011

A cidade e suas casas


Em casas sórdidas e sujas
campeiam amores urgentes.
Sobre o corpo frio e mal dormido com cheiro de fumo, cachaça e francês barato
deleita-se um outro. O músculo sente.
A noite cai sobre as casas, as ruas, alcança a cidade
Há crianças com sonhos de roda, playstation, celulares modernos, cédula dos novos dias.
Há mulheres remoendo velhos ranços
e homens arrastando-se na vida, fumando o cigarro do progresso
                                                                     e morrendo de câncer.
 A cidade abre sua boca diária.
O seu hálito e o seu hábito empurram os seres que a codificam e a transformam em sombras e sonhos fúteis.

Valdemir Guimarães, 18 de junho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

A valsa

                                                                                                   
                                                                                                    Aí, tal o mar, faz-se diferença em se                                                                                                                                                                                                                      banhar, no se deixar levar pelas ondas.

                  Era como se fosse uma atriz que se preparava para entrar em cena. No quarto, em seu cantinho de sempre, ladeada por mil cremes para os pés, mãos, pernas e seios, asseava-se demoradamente. Suas mãos pequenas, dedinhos finos e negros, umedecidos por um leite agradável, deslizavam pelas pernas, em pelos loiros, num vai-e-vem delicado, dedicado, pausado para novas investidas no leite branco com cheiro de ervas, de plantas indecifráveis. No ambiente, a luz que lhe banhava era branda, pouca e calma. Da sala deslizava uma valsa sensata e melodiosa. Ela ainda na sua rotina de mulher que se prepara para matar de paixão, ou, então, morrer de raiva do homem que lhe amaria. 
                   Ela era quase toda sem pelos, quase toda. Pernas e braços, pelos loiros, assaz; já a visão em torno do sexo, puro volume, ou de suas axilas lisas, revelavam todo o trabalho, o zelo que ela tinha consigo. Nua e quase toda sem pelos.
                   E tal maravilha ali no quarto preparando-se para noite, mais uma noite de uma mulher casada. Um ano de casada. Planos de ter filhos, só bem mais tarde, quando estivesse mais arranjada; emprego certo, casa boa e vida segura.
                   O esposo, na sala, embala-se numa valsa, fuma um cigarrinho não vendido em tabacarias. Descansa do dia cansativo, da lida, do corre-corre das capitais que fazem mais mal que homens bem sucedidos. O cigarro à mão, uma cerveja ao lado e uma fumaça impregnando o ar da sala, do apartamento, motivo de reclamações dos condôminos próximos, o chamavam descaradamente de maconheiro, mau exemplo para todas as famílias que se agrupavam naquele prédio de classe média. Ainda assim, embriagado pela cerveja ou pela erva, ele conseguia captar o cheiro que exala do quarto. Ela reclamava do cigarro, censurava-o para que parasse, pois não suporta aquele odor. Ele apenas curte, curte o seu reclamar, e o seu cheiro que dali mesmo ele sente, suas narinas dilatavam-se.
                   Mais tarde, ele chega-se até o quarto e tal, mas ela finge não  o ouvir chegando. Finge não sentir aquele odor que ela tanto detesta, como também, não sentir seus dedos e mãos deslizarem pelos seus braços e pernas peludos, pela barriga, seios e, como sempre, descerem de repente até seu sexo volumoso e sem proteção.
                   E tá a alma, e corpos juntos, colados sentindo-se. Volume contra volume. O breu do quarto agora os banha, os cobre. Da sala ainda se ouve um leve compasso valsado, já no quarto, outro compasso, às vezes binário, ternário e outros davam ritmo àquela noite impar de um dia tórrido e comum do centro daquela cidade perdida do nordeste brasileiro. 


Valdemir Guimarães
                                     Teresina, 10 de abril de 2009     

domingo, 12 de junho de 2011

Texto para Cristina e Jane

Sei que a saudade às vezes desce d`alto
Quando vem abre um céu de endoidecer
Que outros astros de susto dão saltos
Já nuvens loucas ganham cor só em ver

E quando pousa em um peito cansado
Se aloja feito cascalho em um rim
Faz-se sentir nos cantos mais sagrados
Estala em dor: baús de tempo afins

E se vai feito andarilho sem pressa
Na sua andança lições e aventuras
A vida, a quem sentiu-a, urge, egressa 

Volta o calor , mas outro sol `naugura
E assim se vai saudade branda e linda
Que dói e mofina, mas um dia finda                     

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Jamir e Donga

Jamir estava pronto para exercer a sua profissão: confecção de móveis, portas e janelas para as novas casas construídas, mas ele não era de ferro, gostava de um batuque e de um terecô. Não bebia água-ardente, gostava mesmo era de dançar com uma boa dançarina. Tinha as suas preferidas.
Aconteceu que indo aos festejos de São Sebastião, num sítio à beira do Codozinho, enamorou-se de uma jovem de cabelos longos e castanhos, ondulados, filha de um português com uma negra escrava de Angola, chamava-se Donga.
No fundo da mata do Codó morava uma bruxa com duas filhas paupérrimas em beleza física. Desdentadas, olhos vazados, possuíam um mau hálito constante, escorria da boca das bruxinhas uma baba pegajosa, que atraia moscas, besouros e outros insetos. Moças feias sem atrativos, moradoras em uma loca ao pé de um morro. Alimentavam-se de frutos do mato e de caças apreendidas em arapucas. Exalavam mau cheiro.
A bruxa havia conhecido Jamir quando este tomava banho no rio Codozinho. Jurou aos espíritos da mata, das águas e das pedras que Jamir casaria com uma de suas filhas. Trabalharia neste sentido. Usaria os seus poderes de magia negra.
O jovem frequentando uma roda de tambor de mina, conheceu Constança, uma das filhas da bruxa. Enfeitou-se para impressionar Jamir que não lhe deu atenção. Jamir estava acompanhado de Donga, divertiu-se bastante, dançou a punga, deu umbigadas na namorada, trocaram afagos e beijos. Constança, renegada a plano inferior, retirou-se da festa, os seus olhos vazados ficaram vermelhos de tanto chorar, via ao longe a silhueta  de Jamir.
A bruxa, mesmo assim, não desistiu das suas intenções casamenteiras. Certo dia, passando pela Lagoa Negra, próxima à Água Fria, viu Donga. Aproximou-se e disse: “Bom dia, jovem, vais tomar banho nesta lagoa imunda? Sei de um lugar, onde as águas são mais límpidas e frescas, vem comigo”.
Donga animou-se com o convite, deu braço à bruxa amparando-a do pedregulho que dificulta o caminho. Chegando lá, lugar mais profundo da lagoa, num movimento rápido, a bruxa jogou Donga naquelas águas escuras, impenetráveis à luz do sol. Bradando a seguinte maldição: “Com os poderes da magia negra, virarás uma serpente asquerosa, venenosa, peçonhenta. Voltarás ao teu estado normal quando fores beijada, desejada por um efebo, quebrarás o teu encantamento”. No mesmo momento, houve um grande estrondo nas profundezas das águas. Donga foi tragada por um grande redemoinho. A bruxa ria, soltava gargalhadas infernais. Pronunciava palavras mágicas e maldições, tomou sua vassoura voadora e se foi soltando sons como uma gralha perseguida por um temido e carniceiro gavião. Chegando à caverna, com ar de vencedora, narrou às filhas o acontecido. Riram muito da desgraça da jovem.
O desaparecimento inesperado de Donga foi muito comentado na Vila, não havia indícios que orientasse a sua procura. Conjecturas e hipóteses eram as mais variadas. Codozinho, Itapicuru, Água Fria, as Lagoas Negra e dos Pajeleiros, Morro do Cão e o Riacho Saco foram varridos e explorados na procura da moça. Desesperado, Jamir almejava encontrar, pelo menos o cadáver de sua amada.
No verão, a Lagoa Negra tornava-se um ponto lamacento, cercado de palmeiras de babaçu, de buritis e de ingazeiras secas. Os moradores das imediações da Lagoa fizeram uma vala até o riacho da Água Fria, no sentido de escoar aquela fedentina.
À noite, Donga se dirigia  ao riacho Água Fria, a fim de se lavar da lama e lá permanecia até altas horas, sentada numa grande pedra a se pentear e a cantar modinhas tristes. Neste momento, tomava a forma humana. Retornava ao aspecto de asqueroso ofídio, com a aproximação de alguém. Desaparecia.
Em uma noite de belo luar, Donga se encontrava em cima da Pedra Redonda, e cantava as suas canções revestidas de uma tristeza langorosa. Nesta noite, Jamir vinha de uma festa no Alto da Fábrica, pensando na sua amada. Quando se preparava para atravessar as águas mornas do riacho, ouviu uma voz maviosa que emitia sons de uma canção romântica. Aguçou os ouvidos, parou e procurou descobrir a dona de tão bela voz.
O vento farfalhava nas folhas das palmeiras e levava aquele canto a confundir-se com a serenata dolente das águas do riacho. A canção misteriosa continuava a enfeitar aquela noite de luar.
Jamir intrigado olhou para a grande Pedra Redonda, destacava-se das outras pela sua dimensão e formato. Admirado viu que lá se encontrava a sua jovem namorada. O susto foi grande, deu um espetacular salto em direção à pedra. A jovem jogou-se nas águas, recolhendo-se como serpente ao lamaçal da Lagoa.
Jamir desesperado gritava o nome de sua amada. Consolava-o a certeza de que se encontrava viva. Sofrendo, talvez de algum encantamento maldoso.
Sabia que um dia tudo voltaria ao normal, o encanto seria quebrado. Depois de muito pensar decidiu que ficaria de alcateia todas as noites no mesmo horário da aparição. E assim procedeu.
Noite de lua cheia. Céu estrelado, brisa amena no mês de abril. A lua parecia estática na imensidade da abóbada celestial. Jamir tomou banho, trocou de roupa, perfumou-se e saiu levando a certeza que a beleza radiosa daquela noite devolveria-lhe a sua Donga. Rumou para a Água Fria, cheio de esperança. Escondeu-se entre as árvores, ouvidos atentos. Ficou admirando o balet dos peixinhos sobre as águas do riacho, pareciam que executavam danças coreografadas pelos sons dos tambores do terecô de dona Sinhá, que se localizava ali perto, mas sempre atento à pedra grande e redonda. Como uma aparição encantada, surgiu do seio das águas a bela Donga. Sentou-se sobre a pedra e começou à luz da lua a cantar as suas melodias enredadas de estórias de princesas encantadas, presas na furna de um dragão.
O negro mina deu um salto em direção à pedra. Jogou-se em cima de sua eleita, que reagiu instintivamente àquela surpresa. O jovem apaixonado enlaçou-a em seus braços beijando-a. Donga, metade serpente, metade gente, reconheceu seu amor. Deixando-se ficar presa nos braços do homem amado.
As águas da Água Fria agitaram-se acompanhadas de um grande silvo, subiram às ribanceiras. Da Pedra Redonda, saíram tufos de fumaça formando figuras desconhecidas, indefinidas que se dissolviam na doce brisa que acariciava os cabelos da jovem. A Pedra Redonda suspensa no espaço, numa autêntica levitação se deslocara, perdeu o equilíbrio e caiu nos lajeados lodosos transformando-se em pó.
Uma voz rouquenha dizia: “Estou morrendo, sem os poderes da magia negra”. Nisto, apareceu uma serpente volumosa, inerte, boiando rumo ao Itapicuru.
Jamir e Donga, estratificados diante do espetáculo inesperado, permaneciam unidos, abraçados, boquiabertos, assustados pelo que presenciavam.
De repente, antes da hora grande nos terreiros de terecô, os atabaques batiam mais forte, a vibração dos guias eram maiores. Os pontos dos “santos” evocados ecoavam no silêncio da noite.
Colados os corpos, os amantes resolveram ir ao terreiro pedir proteção a Légua Bogi. Após pedir a benção aos “santos” afros, arriados em seus “cavalos”, o céu cobriu-se de nuvens escuras prenunciando um grande temporal. Relâmpagos alumiavam a escuridão da noite, um estrondoso trovão amedrontou ainda mais os participantes da seita afro-brasileira. Os “santos” subiram deixando os seus “cavalos” apavorados. No céu apareceu uma mancha de fogo, atravessada pela vassoura da bruxa.
                Mãe Sinhá reuniu os “cavalos” e depois de uma longa explanação pediu que atabaqueiros batessem os seus atabaques com mais firmeza e fé, a fim de chamar de volta os orixás.
                As notícias, as últimas, de Jamir e de Donga são escassas. Sabe-se, no entanto, que residem em Benin.  Jamir virou empresário, montou uma fábrica de móveis. Encheu a casa de filhos.  Donga tornou-se uma mãe carinhosa. Salve os novos aguidás.


João Batista Machado
Escritor codoense, autor do livro Histórias do Fundo do Baú.
Esse texto foi extraído do livro, ainda inédito, Imaginário Codoense.