Cheila
domingo, 31 de agosto de 2025
Águas cristalinas
Andar pela calçada de sua
porta, quando fora do horário de sua rotina lhe custava muito. Lhe era um
desassossego quando Nora, a esposa, o conclamava a comprar um simples pão para
o café da tarde aos sábados. Embora, a mulher aos empurrões conseguisse sempre,
sempre ela reclamava, fazia cara feia, pegava os chinelos em desagrado e saia.
Mas naquele dia aconteceu-lhe algo que das trezentas vezes de ida naquela velha
padaria não lhe acontecera. Num desembaraço no troco dos pães, misturado com o
leite, conheceu Marta. Senhora dos 35
anos, vinte mais nova que ele, sorridente, dentista, morava logo ali pertinho
de sua casa, estava na casa de uma irmã por um temporada e sim, aquele horário
ela descia até aquela velha padaria.
Algo aconteceu após
aquela fortuito encontro. Sábados seguidos ele tornou a descer para comprar
pães. Ia com um sorriso adiante dos passos, um perfume exalando firme, e
descontraído. Encontrando Marta, sentaram-se, tomavam um café, desenterrava ele
histórias humoradas. Sentia-se bem como nunca mais sentira-se na vida. Por um
instante, rápido, lembrava-se de Nora. Os pães por levar a casa, droga de casa,
lamentava o horaria, seu tempo escasso e bravo tornava a voltar para sua
alcova.
Depois do último
encontro, da qual pegou o endereço da jovem senhora, consultou o relógio de
pulso, ajeitou o óculos, deu uma desculpa sem rumo e foi até a casa de Marta.
Ela já o esperava, sozinha. Não demoraram a trocar os primeiros beijos, ambos
apaixonados estavam. Fizeram um amor rápido e pulsante ali mesmo no sofá. Sem
jeito vestiu-se às pressas, nunca se vira naquela situação: medo de ser
flagrado nu por algum estranho, em uma casa em que nada lhe fazia sentir-se em
casa. Achou-se sem ninho. Trocou ainda um último beijo e saiu.
Durante alguns meses,
três pra ser exato, sua rotina de vida mudou. Ia ao trabalho, pensava em Marta,
No caminho para casa, passava na rua de Marta, ao banhar, suspirava por Marta,
ao dormir, sonhava com Marta e às quintas-feiras, a noite, tardava chegar em casa,
pois este dia era o dia do encontro com Marta.
Beijou-a com paixão e
disse como quem dissesse eu te amo: “vou me separar de Nora”.
No dia seguinte, a
friagem logo cedo parecia lhe anunciar algo: não conseguiu falar com Marta. Seu telefone
não atendia as chamadas, as mensagens eram vistas e se acumulavam junto as
outras, os áudios nunca ouvidos. Na quinta sagrada, ela não o recebeu, e para
sua infeliz surpresa descobriu nesse dia que Marta havia ido embora.
Quase chorou pelos
cantos, os dois olhos boiavam sob águas cristalinas, deu de beber em casa e na
rua por algumas semanas. Tragou alguns cigarros as escondidas na madrugada fria
e segura de sua casa. Todos o estranharam: Nora e a as duas filhas. “Você tem
alguma coisa, pai?” Ele balançou a cabeça em negativa, suspirou e baixou a
vista, os dois olhos boiavam sob águas cristalinas. Negou-se a consultar-se com
um psicólogo. Cumpriu seu luto em silencio.
Aos sábados, ainda descia
para comprar pães. Passado algum tempo, ainda lembrava-se de Marta. Não mais
com o mesmo ardor, paixão. Ou seja lá o que foi que ele sentiu. Rabugento, Nora
o expulsava de casa e exigia a sua volta com o pães da tarde. Ele ia e voltava.
Abalado, ele voltava. Triste, ele voltava. Sem esperança, ele votava. Até
entender que para os braço de Nora, ele, dali, nunca sairia.
Valdemir Guimarães 17/02/2025
domingo, 24 de agosto de 2025
Claro que me excita o instinto
De fazer um poema de ódio
Expurgar todo beleza rala
Delicadeza que maltrata
O desinteresse que só suga
Pulga sorvendo sangue
Teatro da verdade inventada.
Não existe rima para tanto
Versos de odor tão embebidos
Estrofes em câncer entristecidos
Regados na desternura de mentiras.
Como pode alguém se iludir
Por teu doce canto desafinado
Teu seio batido e enviesado
Nádegas sem repertorio próprio
E pés sem vida, sem ânimos
Quis que um dia na minha vida você se criasse
E te fiz e coloquei num pedestal ancestral
A ti fiz juramentos
Verti por ti todo o meu sangue
Pluguei a tua teia em minha veia
Acendi pra você velas roxas
Sacrifiquei filhos já paridos
E Mulheres que a mim amaram sem ter porquê.
Agora que a vida por mim passou
E tanto doei-me e por fim sinto-me vazio
Rio das peripécias de um amor sacro
A uma santa sem caralho
Ódio quero expulsar desse triste coração
Deixar sangrar qualquer lembrança regada de uma espessa esperança
Por aqui e agora selo um pacto comigo
De quer-me como maior amigo
E ver-te como o certo desabrigo.
Valdemir Guimaraes