domingo, 21 de setembro de 2025

Só posso te dar esse presente: o agora.

Todos os segundos dos minutos da minha hora!

O futuro, o furo no vão 

Deixo para os que cultuam a cultura.

Minha filha sempre será minha

Aqui ou numa ilha, tá!

Entrou para sempre na minha história

e seu presente é sua trajetória.

Mas o que minha filha será?

Meu amor é teu e não vale mais que um dia..

E não foi isso que Deus nos deu!?

Só posso e devo te dar esse presente: o agora. 

Todos os minutos dos segundos que inauguram minha hora!


Valdemir Guimarães 


domingo, 31 de agosto de 2025

 Cheila


Como não lembrar teu rosto
Se andando divisando a rua
Aprumo a vista e vem o gosto
Da mais bela imagem tua

Aí me pergunto se é miragem
Quando miro de longe um rosto vã
Se o que se afigura é linguagem
Devaneio, quiçá uma ilusão irmã

Só mais tranquilo fico quando
De perto certifico de seu
Os olhos que implico rufando
Nada mais que são os meus

Impacientes de ver que teu rosto
Quem sabe ao certo não queira 
O quanto de perto o meu exposto
Por onde anda clama por Cheila


Valdemir Guimarães  2014

 

Águas cristalinas

Andar pela calçada de sua porta, quando fora do horário de sua rotina lhe custava muito. Lhe era um desassossego quando Nora, a esposa, o conclamava a comprar um simples pão para o café da tarde aos sábados. Embora, a mulher aos empurrões conseguisse sempre, sempre ela reclamava, fazia cara feia, pegava os chinelos em desagrado e saia. Mas naquele dia aconteceu-lhe algo que das trezentas vezes de ida naquela velha padaria não lhe acontecera. Num desembaraço no troco dos pães, misturado com o leite, conheceu Marta.   Senhora dos 35 anos, vinte mais nova que ele, sorridente, dentista, morava logo ali pertinho de sua casa, estava na casa de uma irmã por um temporada e sim, aquele horário ela descia até aquela velha padaria.

Algo aconteceu após aquela fortuito encontro. Sábados seguidos ele tornou a descer para comprar pães. Ia com um sorriso adiante dos passos, um perfume exalando firme, e descontraído. Encontrando Marta, sentaram-se, tomavam um café, desenterrava ele histórias humoradas. Sentia-se bem como nunca mais sentira-se na vida. Por um instante, rápido, lembrava-se de Nora. Os pães por levar a casa, droga de casa, lamentava o horaria, seu tempo escasso e bravo tornava a voltar para sua alcova.

Depois do último encontro, da qual pegou o endereço da jovem senhora, consultou o relógio de pulso, ajeitou o óculos, deu uma desculpa sem rumo e foi até a casa de Marta. Ela já o esperava, sozinha. Não demoraram a trocar os primeiros beijos, ambos apaixonados estavam. Fizeram um amor rápido e pulsante ali mesmo no sofá. Sem jeito vestiu-se às pressas, nunca se vira naquela situação: medo de ser flagrado nu por algum estranho, em uma casa em que nada lhe fazia sentir-se em casa. Achou-se sem ninho. Trocou ainda um último beijo e saiu.   

Durante alguns meses, três pra ser exato, sua rotina de vida mudou. Ia ao trabalho, pensava em Marta, No caminho para casa, passava na rua de Marta, ao banhar, suspirava por Marta, ao dormir, sonhava com Marta e às quintas-feiras, a noite, tardava chegar em casa, pois este dia era o dia do encontro com Marta.

Beijou-a com paixão e disse como quem dissesse eu te amo: “vou me separar de Nora”.

No dia seguinte, a friagem logo cedo parecia lhe anunciar algo:  não conseguiu falar com Marta. Seu telefone não atendia as chamadas, as mensagens eram vistas e se acumulavam junto as outras, os áudios nunca ouvidos. Na quinta sagrada, ela não o recebeu, e para sua infeliz surpresa descobriu nesse dia que Marta havia ido embora.

Quase chorou pelos cantos, os dois olhos boiavam sob águas cristalinas, deu de beber em casa e na rua por algumas semanas. Tragou alguns cigarros as escondidas na madrugada fria e segura de sua casa. Todos o estranharam: Nora e a as duas filhas. “Você tem alguma coisa, pai?” Ele balançou a cabeça em negativa, suspirou e baixou a vista, os dois olhos boiavam sob águas cristalinas. Negou-se a consultar-se com um psicólogo. Cumpriu seu luto em silencio.

Aos sábados, ainda descia para comprar pães. Passado algum tempo, ainda lembrava-se de Marta. Não mais com o mesmo ardor, paixão. Ou seja lá o que foi que ele sentiu. Rabugento, Nora o expulsava de casa e exigia a sua volta com o pães da tarde. Ele ia e voltava. Abalado, ele voltava. Triste, ele voltava. Sem esperança, ele votava. Até entender que para os braço de Nora, ele, dali, nunca sairia.

 

Valdemir Guimarães    17/02/2025


domingo, 24 de agosto de 2025

 

Claro que me excita o instinto

De fazer um poema de ódio

Expurgar todo beleza rala

Delicadeza que maltrata

O desinteresse que só suga

Pulga sorvendo sangue

Teatro da verdade inventada.

Não existe rima para tanto

Versos de odor tão embebidos

Estrofes em câncer entristecidos

Regados na desternura de mentiras.

Como pode alguém se iludir

Por teu doce canto desafinado

Teu seio batido e enviesado

Nádegas sem repertorio próprio

E pés sem vida, sem ânimos

Quis que um dia na minha vida você se criasse

E te fiz e coloquei num pedestal ancestral

A ti fiz juramentos

Verti por ti todo o meu sangue

Pluguei a tua teia em minha veia

Acendi pra você velas roxas

Sacrifiquei filhos já paridos

E Mulheres que a mim amaram sem ter porquê.

Agora que a vida por mim passou

E tanto doei-me e por fim sinto-me vazio

Rio das peripécias de um amor sacro

A uma santa sem caralho

Ódio quero expulsar desse triste coração

Deixar sangrar qualquer lembrança regada de uma espessa esperança

Por aqui e agora selo um pacto comigo

De quer-me como maior amigo

E ver-te como o certo desabrigo.


Valdemir Guimaraes