domingo, 19 de março de 2017

Um conto de amor

Dedicado a minha amiga Eliene

Ela se chegou junto a mim. Trouxe consigo um cachorrinho, um serzinho focinhento coberto de pelos brancos e pretos. Miúda criatura que a obedecia humildemente. Um riso fácil se abriu no rosto de Eneile e o dia, pensei, ser-me-ia simples, calmo e sem dor.
Passamos boa parte da tarde assim, em tagarelice fácil, sem aspereza,h a r m o n i o s a m e n t e. Seu cão vez ou outra passava sobre nossos corpos relaxados no assoalho. Sobre ela, deitava-se, lambia-lhe o rosto, ria com sua dona, sentia-nos bem.  Cãozinho sensível.
O lerdo ventilador aspergia o ambiente. A TV amiga estava desligada,  ouvíamos Beatles, Something, quando lhe dei a notícia. O simples respirar desigual de Eneile fez com que o seu amigável cão afastasse-se de sua dona. Pôs-se num canto qualquer da casa.  A minha bela rainha desfigurou-se, seu semblante mudou repentinamente e ela cobriu com as mãos seu rosto.
Para mim era nova aquela cena e o sentimento que me arrancava. Encontrávamos-nos há semanas e nunca eu a vira assim, tão frágil. “Oh! Darling” brotou do som. Aproximei-me dela, queria alcançar com minhas mãos as suas, o seu rosto e cabelos, mostrar a ela os meus olhos, como os dias, sinceros. Queria que ela cresse em minhas palavras ainda que navalhas. De costas a mim, e cabeça baixa se plantou em minha sala. Depois se levantou e foi à copa. Sorveu um copo d’água. Chamou ao cão que a obedeceu incontinente. Aí, sim, vi suas lágrimas descendo naquele rosto perfeito e difícil de descrer como as escrituras divinas.
Ah, princesa minha, a vida... Não completei a frase. Lembrei-me dos nossos dias, dos filmes vistos com amor e sabor da paixão. Olhei no vaso sobre a mesa as rosas que ontem mesmo ela me trouxera. Vi, não nelas, rosas, o quanto nossas vidas eram frágeis e poucas, mas sim no simples gesto de ela trazer-me afetuosamente algo que me encantasse, como nada que burocratizava a vida, depois que o amor aparecesse, fazia sentido. Tudo era supérfluo diante do meu amor, mas o que era meu amor, se não podia dar a ela por completo, e ainda que pudesse como supunha, ela parecia não compreender. Ah, razão! O que vale você nessa nossa vida que se arrasta, assim, vã?
Tinha eu em uma cidade não muito distante dali uma esposa e uma filha. Um casamento fracassado, amigos distantes e lembranças agradáveis de uma vida que não rendia mais. E ali ao meu lado a felicidade sempre almejada, um amor em ebulição, uma paixão no que lhe há de mais óbvio e dispendioso.
Depois da água sorvida, lágrimas contidas e rosto refeito, com a mesma classe com que ela me veio inteira e bela, se despediu de mim. Seu cão me olhou terno. Creio que ainda me riu. Dela só me veio um não esperava isso de você e saiu. Já era inicio de noite. O sol aquietara-se. Depois ficou em mim apenas a imagem de seu riso fácil saindo de seu rosto. “Michelle” parecia soar no ar, debrucei-me sobre a mesa e comecei a chorar.   
                               
                                  Valdemir Guimarães 
                               Codó, fevereiro de 2014                                                                          
                

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