quarta-feira, 22 de março de 2017

                    A João Batista

Meu bom amigo, João
Hoje, visitando teu túmulo
A brisa que passava me trouxe lembranças tuas...
Vai longe esse ar de saudade
Viaja agora, se em Codó, pelas ruas
Simples casas , igrejas, alcoices e praças
Daqui, inda vejo ele se dispersar....

Valdemir Guimarães


domingo, 19 de março de 2017

Um conto de amor

Dedicado a minha amiga Eliene

Ela se chegou junto a mim. Trouxe consigo um cachorrinho, um serzinho focinhento coberto de pelos brancos e pretos. Miúda criatura que a obedecia humildemente. Um riso fácil se abriu no rosto de Eneile e o dia, pensei, ser-me-ia simples, calmo e sem dor.
Passamos boa parte da tarde assim, em tagarelice fácil, sem aspereza,h a r m o n i o s a m e n t e. Seu cão vez ou outra passava sobre nossos corpos relaxados no assoalho. Sobre ela, deitava-se, lambia-lhe o rosto, ria com sua dona, sentia-nos bem.  Cãozinho sensível.
O lerdo ventilador aspergia o ambiente. A TV amiga estava desligada,  ouvíamos Beatles, Something, quando lhe dei a notícia. O simples respirar desigual de Eneile fez com que o seu amigável cão afastasse-se de sua dona. Pôs-se num canto qualquer da casa.  A minha bela rainha desfigurou-se, seu semblante mudou repentinamente e ela cobriu com as mãos seu rosto.
Para mim era nova aquela cena e o sentimento que me arrancava. Encontrávamos-nos há semanas e nunca eu a vira assim, tão frágil. “Oh! Darling” brotou do som. Aproximei-me dela, queria alcançar com minhas mãos as suas, o seu rosto e cabelos, mostrar a ela os meus olhos, como os dias, sinceros. Queria que ela cresse em minhas palavras ainda que navalhas. De costas a mim, e cabeça baixa se plantou em minha sala. Depois se levantou e foi à copa. Sorveu um copo d’água. Chamou ao cão que a obedeceu incontinente. Aí, sim, vi suas lágrimas descendo naquele rosto perfeito e difícil de descrer como as escrituras divinas.
Ah, princesa minha, a vida... Não completei a frase. Lembrei-me dos nossos dias, dos filmes vistos com amor e sabor da paixão. Olhei no vaso sobre a mesa as rosas que ontem mesmo ela me trouxera. Vi, não nelas, rosas, o quanto nossas vidas eram frágeis e poucas, mas sim no simples gesto de ela trazer-me afetuosamente algo que me encantasse, como nada que burocratizava a vida, depois que o amor aparecesse, fazia sentido. Tudo era supérfluo diante do meu amor, mas o que era meu amor, se não podia dar a ela por completo, e ainda que pudesse como supunha, ela parecia não compreender. Ah, razão! O que vale você nessa nossa vida que se arrasta, assim, vã?
Tinha eu em uma cidade não muito distante dali uma esposa e uma filha. Um casamento fracassado, amigos distantes e lembranças agradáveis de uma vida que não rendia mais. E ali ao meu lado a felicidade sempre almejada, um amor em ebulição, uma paixão no que lhe há de mais óbvio e dispendioso.
Depois da água sorvida, lágrimas contidas e rosto refeito, com a mesma classe com que ela me veio inteira e bela, se despediu de mim. Seu cão me olhou terno. Creio que ainda me riu. Dela só me veio um não esperava isso de você e saiu. Já era inicio de noite. O sol aquietara-se. Depois ficou em mim apenas a imagem de seu riso fácil saindo de seu rosto. “Michelle” parecia soar no ar, debrucei-me sobre a mesa e comecei a chorar.   
                               
                                  Valdemir Guimarães 
                               Codó, fevereiro de 2014                                                                          
                

quinta-feira, 16 de março de 2017

Chuva, chuvisco, chuvarada!

Tem sido assim meus últimos dias: chuva, chuvisco e chuvarada. E tem sido tão bom. Acordar é uma maravilha! Sentir aquele friozinho batendo na pele, arrepio, arrepio de chuvisco. Os gatos encolhidos pelos cantos, o cão murcho e um cafezinho quente a minha espera. Quando ela,a chuva, cai pela manhã antes da aula, a gente torce para que caia uma chuvarada até mais tarde, quando já não dá mais para assistir a expressões numéricas, orações insubordinadas, ligações carbônicas ... Nada de gramáticas . Mamãe ainda vinha me convencer, sem sucesso, que minha ida faria bem ao meu acesso à vida, ao mundo do trabalho. E eu cara de doente de frio, afronhava como podia na minha pequena cama. Ah, linda chuvarada.
Vê-la em chuvisco pela janela, é prestigiar uma das artes mais belas do Deus maior, oh, que prazer. E desfazer o dia pela tarde sob o teto protegido com os dengos da vovó trazendo-nos, aos netos, bolos fritos e chá quente, quem resiste a um chuvisco assim?
Quando a chuva passava, isso no tempo que ainda eu ia ao rio, e via além do Parnaíba, suas águas barrentas descendo e descendo e lavando e levando troncos, folhas, lixo, paz e zaz e zens... embora até mesmos restos vidas em noticia frias do jornalista branco das sete, eu visse, ainda assim, eu via beleza. Beleza e medo. No sem medida derrama de tanta água. Baita Chuvarada.
Agora, agora mesmo nesse município, cidade do Próprio, distante de casa, e de amores que me põe de pé e renova minha fé, olho para essa chuva, chuvisco, quase chuvarada e abraço esse dia como milagre de mil lágrimas de um Deus saudoso de um tempo em que o tempo era tudo. Era quase nada no infinito celeste do seu olhar que se perde aflito pelo destino de todos nós.       


Valdemir Guimarães 

sexta-feira, 3 de março de 2017














Quando olho da janela a bela flor
Penso, já fui glutão, caçador, agora, cadê sabor?
O tempo e sua curva curvam-nos sem piedade
não há amor, nem ardor que dure maior idade
D’antiga paixão, só saudade.
Se eu pudesse reverter o tempo e sentidos meus recuperasse
você, jovem flor, me desejaria sempre, mesmo se dano eu lhe causasse
mas como sabedor é o deus tempo
que leva tudo ao seu sabor, seja fruto ou prejuízo bruto
meu desejo novo, o teu nem repito, foi-se  como um grito
tenaz e lento, relegando-se  com o vento. 


Valdemir Guimarães