Dedicado a minha amiga Eliene
Ela se chegou junto a mim. Trouxe consigo um cachorrinho, um
serzinho focinhento coberto de pelos brancos e pretos. Miúda criatura que a
obedecia humildemente. Um riso fácil se abriu no rosto de Eneile e o dia,
pensei, ser-me-ia simples, calmo e sem dor.
Passamos boa parte da tarde assim, em tagarelice fácil, sem
aspereza,h a r m o n i o s a m e n t
e. Seu cão vez ou outra passava sobre nossos corpos relaxados no assoalho.
Sobre ela, deitava-se, lambia-lhe o rosto, ria com sua dona, sentia-nos
bem. Cãozinho sensível.
O lerdo ventilador aspergia o ambiente. A TV amiga estava
desligada, ouvíamos Beatles, Something,
quando lhe dei a notícia. O simples respirar desigual de Eneile fez com que o seu
amigável cão afastasse-se de sua dona. Pôs-se num canto qualquer da casa. A minha bela rainha desfigurou-se, seu
semblante mudou repentinamente e ela cobriu com as mãos seu rosto.
Para mim era nova aquela cena e o sentimento que me
arrancava. Encontrávamos-nos há semanas e nunca eu a vira assim, tão frágil.
“Oh! Darling” brotou do som. Aproximei-me dela, queria alcançar com minhas mãos
as suas, o seu rosto e cabelos, mostrar a ela os meus olhos, como os dias,
sinceros. Queria que ela cresse em minhas palavras ainda que navalhas. De
costas a mim, e cabeça baixa se plantou em minha sala. Depois se levantou e foi
à copa. Sorveu um copo d’água. Chamou ao cão que a obedeceu incontinente. Aí,
sim, vi suas lágrimas descendo naquele rosto perfeito e difícil de descrer como
as escrituras divinas.
Ah, princesa minha, a vida... Não completei a frase.
Lembrei-me dos nossos dias, dos filmes vistos com amor e sabor da paixão. Olhei
no vaso sobre a mesa as rosas que ontem mesmo ela me trouxera. Vi, não nelas,
rosas, o quanto nossas vidas eram frágeis e poucas, mas sim no simples gesto de
ela trazer-me afetuosamente algo que me encantasse, como nada que burocratizava
a vida, depois que o amor aparecesse, fazia sentido. Tudo era supérfluo diante
do meu amor, mas o que era meu amor, se não podia dar a ela por completo, e
ainda que pudesse como supunha, ela parecia não compreender. Ah, razão! O que
vale você nessa nossa vida que se arrasta, assim, vã?
Tinha eu em uma cidade não muito distante dali uma esposa e
uma filha. Um casamento fracassado, amigos distantes e lembranças agradáveis de
uma vida que não rendia mais. E ali ao meu lado a felicidade sempre almejada,
um amor em ebulição, uma paixão no que lhe há de mais óbvio e dispendioso.
Depois da água sorvida, lágrimas contidas e rosto refeito,
com a mesma classe com que ela me veio inteira e bela, se despediu de mim. Seu
cão me olhou terno. Creio que ainda me riu. Dela só me veio um não esperava
isso de você e saiu. Já era inicio de noite. O sol aquietara-se. Depois ficou
em mim apenas a imagem de seu riso fácil saindo de seu rosto. “Michelle” parecia
soar no ar, debrucei-me sobre a mesa e comecei a chorar.
Valdemir Guimarães
Codó, fevereiro de 2014