sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A noite cai com seu mistério
E  faz segredos das possibilidades mil
de suas inúmeras janelas de seu castelo.
Envolve a todos: quem tem consolo
ou tem medo, frio ou fome
de sua boca caem sílabas doces, acres  
amores, dissabores, discorre  enredos
e ninguém sabe,psiu!É tudo segredo.

Valdemir Guimarães



domingo, 22 de dezembro de 2013













Vilanir

Sai de tua timidez gentil
O que a difere das meninas a mais e a mil.
Tua voz, teu olhar atento, apreendendo o que ao vento o mundo lança,
Não deixam soar palavra, não há verbo que imprima tua emoção mais íntima.
Segue a tua vida, construindo o teu caminho
Edificando amores, amantes, frutos em ouro ou diamantes
Claro que você encontrará um “não de amargar” vez ou outra,
Mas a vida é muita, não pouca.
Nela também há fronhas e trouxas!?    
Sobretudo, irá seguir seu caminho, linda e forte
Marchando à vida na beira da boa sorte.
Teu olhar de menina, tua mão leve e dura,
Tua esperança acesa tatearão rosas que a farão
Além de sentir o cravo de espinho

teu rosto, a vida colado, dela fará um ninho. 

Valdemir Guimarães

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A vida segue
em meio a baratas e fétidos esgotos
besouros, multidões,sãos e loucos
em meio a atropelos
suicidas, virgens,putas,
harmoniosamente, vazia ou abrupta,
ao lado da paixão,cegueira ou o cume do ciúme.

Na neve ou no fogo do norte 
A vida segue, ressurge do imenso vazio,
do infortúnio ou da sorte.
Arrebentando-se em mudanças,
se congela, petrifica, não é ela
Há bilhões de anos
com ou sem planos, a vida, aquecida pelo sol
ferve nas multidões das capitais, dissona
em si e afina-se em bemol.


Valdemir Guimarães

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Á Soraia

Uma menina e tanto!
Meiguice, aos quilos e a manha
Das que tem nos pais seu cais.
O amor aportou aí 
E Deus sabe o valor que ele tem
Seu amor: sua mãe e seu pai
Bem querer que lhe faz tanto bem
Inda mais neste mundo: vale mais quem o tem.

Valdemir Guimarães


quarta-feira, 30 de outubro de 2013




                                                                          Á Júlia

Quem é Júlia em julho, outubro e novembro
Será a mesma de março, no mormaço do abraço?
Júlia, a atriz, a aluna e que sempre teve, fez e quis. 
Ela é estudante e quer ser professora
Pois jura que adora ler, lecionar
Pois antes que a pílula doura 
Inda vou vê-la doutora nas letras de amar.

Valdemir Guimarães 

sábado, 12 de outubro de 2013

Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 17 de setembro de 2013














Gênesis


Uma mulher nua...
Foi essa a primeira obra que Deus fez
Delineou seios, ventre, pés, mãos e uma divina tez.
O trabalho em sua grande obra e a mais perfeita criação foi minucioso
Para isso, tinha Ele todo o tempo, por isso foi laborioso.

O homem, esse foi feito bem depois, quando não havia mais nada a fazer, a criar.
Suspirou fundo o Criador e num sopro, ou um espirro:
- Ei-lo o homem.
E disse meio que rindo aos outros feitos seus:
-E não zombem!

(Valdemir Guimarães)

domingo, 8 de setembro de 2013





















O que gritas por traz desse rosto de menina?
Que sonhos sonhas durante a noite e que não contas durante o dia?
O que penetra nessa tua fronte e se revela em ideia?
O que queres nesse circo sem plateia?

Quando mais menina possivelmente mirava a mocidade
Cólicas, menstruo, lápis para o rosto e um amor sem maldade
Suas amigas de infância, o amor fraternal de teus pais
Ainda a seguem? Há quanto tempo isso faz?

O que por hora vejo e publico é um flagrante de tua beleza:
A aspereza de tuas mãos, revelando o labor diário
o riso fácil de teus lábios que se abrem e iluminam a certeza
dos que ao teu lado estão ou aos que simples passam...mudos, sem razão

O que vem à frente, menina, é um enigma,
e nem você, eu ou ninguém pode precisar o dia seguinte: o próximo ato.
E aí está a graça da vida: é sempre inédito o imediato capítulo.

Olhando assim, passo a entender teu gesto simples, teu riso infinito:
aspergindo o dia com tua alegria, amanhece no teu jardim flores
colhe-as independente das estações, amar é multiplicar sensações.

                                                                                Valdemir Guimarães



quarta-feira, 4 de setembro de 2013












São olhos, mãos e bocas
E jeitos, risos e teimosias
Há também uma maneira, um tom de se zangar
E lágrimas que descem do rosto deixando um gosto
Nada bom.
E há sono, preguiça, bafo e laço no abraço
E um beijo diferente: não é mulher, nem homem
Inexiste o sexo
E é uma menina e um menino
E um ninho que me faço, refaço e traço o meu trilho
O que de mim seria se não os tivesse, filhos?



Valdemir Guimaraes 

quinta-feira, 23 de maio de 2013












Revi as fotos tuas hoje
E olhando-as fiz votos de que voltes logo.
São tristes as noites
retos, longos e sem graça, os meus dias
Isso desde o dia em que aqui você veio e feito um percevejo
sugou meu sangue.
"Virei-me", o clínico  constatou:
- É, meu rapaz, és hospedeiro da saudade.
Ainda bem que não é transmissível
Aí também seria muita maldade.  

   Valdemir Guimarães 

segunda-feira, 20 de maio de 2013





                                    
                 
                       ao professor Tiago
  

Desconfio daquele que não gosta de poesia.
É um homem, mulher ou uma coisa sem data, tosca  e fria?  


                   Valdemir Guimarães 

segunda-feira, 13 de maio de 2013




Noites do Norte
           (Caetano Veloso e Joaquim Nabuco)

A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte...
É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.

domingo, 12 de maio de 2013














Sei que esses dias vão além do tédio:
Estou longe dos meus, doente e sozinho.
Estar sozinho, pra mim que sei o quanto o espinho dói,
Até que vai.
Um blues, vinho, e o peito inda que doa se reconstrói.
Doente, aí é novidade, mas entendo, deve ser a idade
Os anos passam, e o corpo fica?
Não, ele vai com o tempo e nunca mais torna a ser o mesmo, vai lente, lento.
Longe sim, mas não tão longe, por isso não era pra eu estar assim.
Contudo, longe, doente e sozinho é maldade
É como se triplicasse a dor do espinho
a enfermidade ganhasse idade e a distância se esticasse
Aí não há vinho, antídoto ou automóvel que alivie essa saudade. 

Valdemir Guimarães 
   

quarta-feira, 8 de maio de 2013









Mal menor
você vai notar olhando ao redor
que sou dos males o menor
pode até contar com o meu amor
naquilo que seja lá o que for

sofrer é antigo por isso que digo
basta estar vivo pra correr perigo
pra tudo conte comigo
darei meu abrigo se quiser abrigo
se for pra brigar por você também brigo
pra tudo conte comigo

minha flor de trigo meu licor de figo
diga onde irás que é pra lá que eu sigo
pra tudo conte comigo
quero estar contigo meu sexto sentido
serei inimigo dos teus inimigos
pra tudo conte comigo

(Itamar Assumpção)


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013





Superficialmente, e só disso posso falar
Que tua boca, pelo menos é o que ouço
Há muito muitos suspiram provar.
E em delírios nos sonhos clamam o beijo teu 
Por não ser descortês em dizer o que, enfim, a mim aconteceu
em sonhos provocado por tua boca nua
Menina,atenda ao apelo desse poeta ateu que
Clama da tua boca apenas um beijo teu.

(Valdemir Guimarães)