quarta-feira, 29 de agosto de 2012


O texto que aí vai não é meu. Poderia até ser pelo fato da identificação, talvez com o “ser burro”, não sei, mas sei que é, antes de tudo, pela a linguagem e poeticidade de Domingos de Oliveira, poeta, diretor, dramaturgo, ator e pessoa a qual gosto muito. O texto não estava assim escrito em lugar nenhum, pelo menos eu não o vi e nem o encontrei. Eu ouvi o próprio Domingos lendo, ou declamando, para ser mais poético. Como se assim fosse um ditado, transcrevi, de tal feita que, aos poucos que visualizam esta página, peço: perdoe-me as possíveis falhas, não sou bom de ouvidos. Como já disse, o texto não é meu, capturei-o do blog de Domingos Oliveira. Estava lá,“Pensamento 2”, ouvi e resolvi postar aqui por parecer bom e já público. Espero que gostem da ironia fina, da poesia como embrulho de bombons e da crítica que contorna todo o pensamento do autor. Boa leitura!  





Pensamento 2

A sociedade é constituída quase completamente por burros. Não me leve a mal, claro que há médicos inteligentes, mas alguém duvida que a maioria dos médicos seja burra? Convenhamos, os médicos são burros de um modo geral. Os advogados, a maioria, a grande  maioria, é burra. Os políticos, por exemplo,... é melhor nem falar no assunto. Não vai nenhuma agressividade, nenhuma, é apenas uma constatação.
Em todo grupo, comunidade, agrupamento, a maioria é burra. A burrice é o contorno do desenho, a liga mestra do edifício. As pessoas são burras, muito burras. É rara a inteligência, essa capacidade de associar contextos distantes. Quando eu era menino, achava que todos eram inteligentes, isso era uma burrice minha. As pessoas não são, as pessoas são muito burras e isso é um fato da vida, esse é um fato da vida da qual nós devemos nos reconciliar, senão não poderemos viver adequadamente na sociedade. As pessoas são inacreditáveis, inimaginavelmente burras. É importantíssimo e urgente afirmar que não vai aqui nenhum julgamento moral: os inteligentes não são melhores que os burros, absolutamente, não são. Nem merecem mais, claro. Os burros também são merecedores de paixão. A propósito, todo homem inteligente tem por obrigação perceber o esplendouro do outro. Todo homem é esplêndido, burro ou inteligente. Todo homem é esplendido, todo homem contém o universo. Uma das primeiras obrigações da inteligência é reconhecer esse fato simples e básico. Não se trata de um julgamento moral. Escusado igualmente observar que a inteligência não tem nada a ver com a cultura, ou com o nível de informação de cada um. Pelo contrário, em terrenos cultos, de modo geral, é encontrado um índice de burrice estonteante. É o tipo tão conhecido que entende de tudo, tão comum na nossa sociedade, entende de tudo, menos daquilo que é humano. Em contra partida, verifica-se que a ignorância e a pobreza têm constituído um campo fértil para o aparecimento das grandes almas. A propósito, alma é sinônimo de inteligência.
É difícil conceituar a inteligência, porém é fácil reconhecer-lhes alguns atributos. O primeiro deles é, sem dúvida, a humildade. A humildade é sinônimo de inteligência. “O homem sábio sabe que não sabe”. Ao passo que o burro é arrogante. Considera-se possuidor de algum saber e consequentemente superior aos outros burros que sabem menos.
Atenção, o burro é competitivo e ele é perigoso. Ele compete, ele julga, ele condena e muitas vezes ele mata. No entanto, com a inteligência, acontece exatamente o contrário: a despeito de si mesma, ela ama. Mozart disse que pra ser um gênio não basta ter talento nem inteligência, é preciso ter também um grande amor. A propósito, amor é sinônimo de inteligência. O burro não ama.
Quem é inteligente sabe que é inteligente, não precisa lhe dizer, sabe que é. Já o burro desconhece sua burrice. Isso seria um drama se não fosse uma tragédia. Posto que o burro no fundo do seu ignorado esplendor sente que lhe falta algo, algo que o inteligente possui e nesse momento advém soberana a inveja, a inveja dos burros. Como se não bastasse ser diferente, o burro passa a odiar o inteligente. No entanto, com a inteligência acontece justo o contrário: ela sempre se reconhece. O homem inteligente não inveja e sim se compraz, exulta quando ver brilhar uma inteligência igual ou maior que a dele. Orienta todos os seus esforços no sentido de uma aproximação amorosa que lhe permita desfrutar um pouco daquela luz do outro.
Os inteligentes, além de ter entre si um grande amor, uma grande admiração, eles se plajeiam constantemente sem pudor. Eles não tentam ser originais, eles sabem que eles são um só, um só acidente da natureza, ou terá sido um recurso de emergência do qual a natureza lançou mão pra cuidar da sobrevivência da espécie antes que os burros a destruam?   
Concluindo, a imprensa é burra, a TV é burra, o esporte é burro, a política é burra, quase tudo que é considerada importante na sociedade atual, não é apenas desimportante, como é burra, trata-se do império da burrice como outrora foi o império romano.                                                                                            
              (Domingos de Oliveira)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


18 de agosto

Pode até não ser virtude sempre
Pois os instantes vão passando e os costumes enveredando e tomando rumos diferentes
Ao ponto de se atribuir ao que era belo e inocente, antes,
Agora ser feio e indecente.
Mas tua maneira incrível de ser exata, bela e fina
Ainda, a retinas comuns, claras, ou e talvez escuras, é um fruto bom e plausível.

Não sei por qual estrada você se leva
ou o que avista os teus olhos de menina
Se há um Deus que te dar ou te nega
Se santo ou entidade te ilumina
Se viu nesse andar tristeza e maldade  
Ou se o amor contigo se afina
Só sei, amiga minha, e isso você sabe também
Pois é professora nesse mundo de ninguém
Que a vida é isso e mais nada
e que quem faz amigo encontra abrigo da chuva que se aproxima

a ti desejam eu e teus amigos próximos só o que há de mais belo e singelo
Que o amor, incompreendido e desejável(espinho, pedra e flor)
no teu colo faça casa e traga consigo o frescor de manhãs e maçãs a quem lhe é bem merecedor.
   
            Valdemir Guimaraes 
                      



                                  



quarta-feira, 15 de agosto de 2012


JUSTIFICATIVA PARA O I SARAU DO CEJA LÚCIA BAYMA
Um centenário em prosa e canto

Não é novidade falar-se em projetos escolares sobre a importância da leitura no grupo escolar e na comunidade, como também não é nova a postura de em projetos se exaltarem a importância de uma ou outra autoridade do mundo das letras. A ideia não é nova, mas é de se louvar a iniciativa presente. Isso por que a leitura de textos literários não é tão comum assim na comunidade em que esse projeto se insere e, também, por que não é sempre, na verdade, é uma oportunidade única, que se têm ícones da literatura e da musica nacional e regional, Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Luís Gonzaga, festejados nacionalmente pelo seu centenário. Centenário, aqui, deve-se entender como tempo de vida que esses homenageados fariam se estivessem vivos, completariam todos cem anos neste ano de 2012. O instante se faz mais que propício para se conhecer e reconhecer traços estilísticos que fazem desses homens especiais na cultura que a descrevem e fazem parte.
Em meio a comemorações, festas e festins, está a necessidade de se deparar com formas de expressões inovadoras, desafiadoras e contemporâneas advindas dos renomes em questão.
Jorge Amado, autor mais adaptado pela televisão brasileira e também o que mais vendeu livro, excluindo Paulo Coelho, segundo o site Wikipédia, é, talvez, um dos mais carismáticos pela sua postura simples e popular. A linguagem baiana e brasileira, a construção dos seus personagens embebidos de brasilidades e a maneira nem sempre sutil, mas, sobre tudo, enfática de questionar o desmantelo dessa nação, por isso, e outras características plausíveis fazem deste homem digno de ser lido, relido e celebrado em um Sarau escolar.   
Nelson Rodrigues, dentre os três escolhidos, talvez seja o mais desconhecido, isso por sua literatura enveredar pelo inconsciente humano, pela alma e por tratar de temas não muito discutidos a luz redentora de qualquer pecado ou preconceito na sociedade. Mostrar traços desumanos, sentimentos não muito nobres sem tal personagem incorporar a mascara de vilão não é nada fácil de aceitar por quem o ler ou mesmo de retratar. E Nelson Rodrigues conseguiu bem isso, teatrou, como ninguém, flagrantes da tragédia humana e brasileira de forma incisiva e bela e também terna, “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”.
Luis Gonzaga, uma bíblia nordestina, devia esse ser mais que aplaudido em escolas, em Saraus, festas regionais, chás e outros eventos, não pelo fato de se destacar com letrado, intelectual sisudo e pragmático, mas antes de tudo, “porque ele é que fala gostoso o português o Brasil ao passo em que nós o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”. Por ser ele o nordestino que mais emplacou a linguagem, as alegrias e dores de seus conterrâneos espalhados por todo o Brasil.
Portanto é justo e necessário pensar nesse “Sarau”, além de tudo seria uma forma singela de se homenagear, conhecer e fazer a comunidade se despertar por esses caracteres que só enobrecem o fato de ser brasileiro e nordestino, pois todos os homenageados vêm da mesma safra: pernambucana, Luis Gonzaga e Nelson Rodrigues; Baiana, Jorge Amado, ou seja, o nordestino se fez em alta nesse Brasil de Deus nosso.
             Valdemir Guimarães

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Quando o amor acaba
O vidro embaça
O copo racha
O filme abala
E o céu desaba
No entanto, findo o pranto, a vida segue silente e constante
Até o renovar, como dantes, do sonho de amar...  

   Valdemir Guimarães

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


MEU CORAÇÃO TEM UM SERENO JEITO

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto.
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado eu mesmo me contesto.
Se trago as mãos distantes do meu peito,
É que há distância entre intenção e gesto.
E se meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa,
Mas o meu peito se desabotoa.
E se a sentença se anuncia bruta,
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa.


Ruy Guerra

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

João chegou do serviço cansado:


- Muié, tô cum a fome da gota. Bota o meu.
- Meu bem, num vai nem banhá? Falou a cuidadosa esposa.
- Banho dispois.
Mesmo contrariada, ela pôs o almoço para o esposo. 
Ele, depois de saciado, arrotou e disse:
- Cumidinha boa, muié, né? Comi feito um animá.
Ela que o espiava comendo feito um porco disse:
- Foi feito pra gente, mas animá também come.
E ambos riram. 
       
                      Valdemir Guimarães