segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Carol e Jorge



Aparentava não mais que 40. Era negra, forte, não era bonita. Melhor, não estava dentro dos padrões, hoje, estabelecidos de beleza. Tinha cabelos crespos, típicos da raça negra, e não muito grandes. Mantinha-os sempre amarrados, ou, quando não, em tocas coloridas. Mas ao contrário do que a maioria achava, ela sentia-se muito feliz, bonita, não, na verdade, sentia-se linda. Dizia-se, lembrando um compositor popular: “sentir é questão de pele e amor é tudo que move”.
 Se não bastasse sua felicidade íntima, mesmo com um corpo gordinho e um rosto diferente, para incômodo dos vizinhos, ela, ainda, namorava à porta, coisa rara nos tempos de hoje, e, mais do que isso, seu namorado era um homem branco, bonito e bem sucedido.
Quando os vizinhos viam Jorge chegando, estacionando o carro novinho à porta de Carol, uns entravam em casa, recolhiam-se, e cerravam as portas. Outros já faziam o inverso. Saiam para ver ou rever o que os seus olhos pareciam lhe enganar. E deliciavam-se, ou perturbavam-se com a cena: o namorado, apaixonado, descendo do carro, fechava a porta, acionava o alarme. Já na calçada, parecia que esquecera algo, voltava em passos corridos, desacionava o alarme, colhia do banco traseiro um ramalhete de orquídeas, aspirava-as, e, enfim, refazia todo o mecânico processo até bater palmas, chamando Carol. 
As pessoas, passando na rua, quando viam a cena amorosa que, ao contrário de outros tempos, embora, como outrora, fosse à porta, diferenciava-se em mãos, gestos, toques e bocas, estranhavam. Pareciam mesmo não acreditar. 
A contra gosto de muitos, eles pareciam se amar. Não era à toa o cuidado com que Jorge acolhia as mãos de Carol, o olhar carinhoso e curioso que lhe estendia em conversas até mesmo fúteis. As flores que ele trazia-lhe, a maneira com que se levantava, quando ela também se erguia para pegar uma água, por exemplo, parecia um amor de outros tempos, com outros personagens. O amor tinha e tem desígnios indomáveis e nem todo mundo tem olho para vê-lo, como se deve, e, nem ouvido educado para ouvi-lo. Suas melodias para alguns destoam, são dissonantes incompatíveis às harmonias do dia a dia.
Aos dois, o fato de serem observados, com olhos até mesmo maldosos, pouco os importava. Talvez, nem ele e nem ela atentassem-se para o que despertavam em outros. Viviam, como todos os amantes, em uma redoma de amor e afetos. Os outros eram apenas meros coadjuvantes que só apareciam para resolução de coisas meramente práticas, materiais e frias, contudo necessárias.
Mas o que muito incomodava, em particular, a um vizinho de Carol que morava defronte a sua casa, isso porque em outros tempos ela confessara seu amor a ele, e, na oportunidade fora humilhada, pelo simples fato de somente gostar dele, era o que ela sussurra ao ouvido de seu amante. Pois quando passava das dez o namoro ganhava mais viço e força. As mãos de Jorge tornavam-se hábeis e Carol beijava-o, beijava-o e beijava-o loucamente, e corria ao seu pescoço, e parecia desfiar aos ouvidos seus frases e frases em forma de canções que ninguém sabia.
 E Jorge, em delícia com a vida, pronunciava baixinho “sentir é questão de pele e amor... o amor...”.  

                                            Valdemir Guimarães     

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