sábado, 21 de janeiro de 2012




Abençoai, papai....abençoai, mamãe

Nessa sexta, 20 de janeiro de 2012, foi o primeiro show que vi da mais duradora dupla de reggae de Teresina: James Brito e Gomes Brasil. Tinha que ser no Clube dos Diários, espaço abençoado pelos poetas, dançarinas e atores, artistas que seguem na pista. Já faz algum tempo que os meninos tocam juntos, mesmo tendo linhas de som diferentes e também projetos artísticos diferentes, quando se juntam ninguém segura, nem resiste e nem se cura à alegria que flui do som de James Brito e Gomes Brasil. Na batera, nada menos que João cabeça; baixo, estava Thiago. Era um Power trio, coeso e com peso como todos têm que ser. E a noite estava ótima. Não estava tão quente como se costuma ser nesta cidade e principalmente no centro, no espaço dos Diários. Muitas mulheres bonitas, encontro de gerações, o poeta William Soares ( ...A poesia não resolve, mas revolve...), Dimas Bezerra e sua voz, sua dança e o riso exato que a alegria sabe dar.... A noite foi muito boa. O Reggae na Boca, o som no peito, e o coração palpitando maravilhoso. Maravilhados, os deuses, lá de cima, vibraram ao sentir os primeiros versos reggeados do poema let’s play that. E essa música, Cuscuz de Mamãe, eu sei, os ouvi cantando junto com quem lá estava, era uma voz celestial, afinada e precisa que assim dizia: ...abençoai, papai, abençoai, mamãe... abençoai, papai, abençoai, mamãe...
                                                                                                                                                       Valdemir Guimarães

domingo, 15 de janeiro de 2012


                             














A imagem é mais precisa que a palavra.
Há beleza na harmonia como a flora, o céu
                                  e o breu se dão.
Ah, traço do criador!  Ah, divina mão!

Assim, recebe-nos e se despede de nós Coroatá
Como quem diz que a beleza mora lá:
Arpoando em cores os que simplesmente passam
E nunca mais tornam a voltar.
                                                    
                                    Valdemir Guimarães 

*Foto: Maria José Pereira Bezerra

sábado, 14 de janeiro de 2012


Uma análise desnecessária

                                            Valdemir Guimarães Sousa

Ouvi esses dias a belíssima canção de Gilberto Gil “Preciso aprender a só ser”, interpretada pelo mesmo no disco Gil Luminoso, ótimo disco por sinal. No álbum, está registrado bons momentos do compositor baiano. Difícil foi fazer a seleção devido ao imenso repertório de qualidade que esse cantor e poeta possui.
 Mas ouvindo a musica em questão, Preciso aprender a só ser, impossível não relacioná-la de imediato com a outra bela canção “Preciso aprender a ser só” de Paulo Sergio Valle e Marcos Valle. Essa última, a conheci na voz de Elis Regina. A intenção, quando Gil compôs a sua música, realmente era essa, creio, parafrasear a primeira, conquanto, substanciar outras sensações, sons e sentimentos.
A paráfrase, “reescritura de um texto já existente, uma espécie de ‘tradução’ dentro da própria língua”, do título é confirmada com a canção em si. A composição funciona como uma espécie de samba resposta comum a compositores cariocas de décadas passadas. A resposta do compositor baiano veio à altura da primeira, tão bela quanto à dos irmãos Valle. 
Afora os adjetivos verdadeiros que abraçam as duas composições, como a lírica emblemática, por exemplo, algo as diferencia. A forma de organização, desenvolvimento do tema, o tom, a intensidade dos sentimentos colocados na canção, por exemplo, e algo mais que poderemos ver adiante.

Preciso aprender a ser só

A letra da canção “Preciso aprender a ser só”, composta por Sergio Valle em 1965, está organizada em uma única estrofe de 15 versos, lembrando um soneto, composição de 14 versos. Encontramos rimas que podemos classificá-las, quanto à posição, em misturadas; tonicidade, aguda ou masculina; sonoridade, perfeita e imperfeita; e por final, valor, pobre: 

“Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver”

“Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus


“Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou”
                 
                           Rima imperfeita

 Além das rimas propriamente ditas, existe outro tipo, nos versos, conhecidas como eco:

“Poder dormir sem sentir teu calor”

“Que a saudade existe e se vem é tão triste”

“E eu preciso aprender a ser só”

Esse processo é muito usual nas canções populares ou em versos modernos, haja vista o poema abaixo de Paulo Leminski.

atrasos do acaso
cuidados
que não quero mais

o que era pra vir
veio tarde
e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz
         ( Poema de Paulo Leminski )

                    A canção popular é um gênero, segundo Ulhôa (1999), composto por letra e melodia que carrega uma relação dialógica entre essas duas características de forma que interferem no próprio gênero, dotando-o de uma linguagem verbal e outra musical. Mas a canção, se bem trabalhada, pode ir além do próprio gênero, ganhando o status de poesia, “gênero” Maior que, em si, carrega sua própria musicalidade, desobrigando-se de ser acompanhada por alguma melodia para que se perceba a música implícita no texto.  O texto de Sergio Valle, em análise, vem marcado fortemente por figuras de sonoridades que dão fluidez ao texto, tornando-o próprio para leitura oral, mesmo sem o acompanhamento de música, típico das canções populares. 

 Figuras como assonância:

“Ah, se eu te pudesse fazer entender”
                                             
 Aliteração

“E eu preciso aprender a ser 
Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi  um sonho e passou


Quanto às funções do texto, são utilizadas pelo autor pelo menos três funções de linguagem, além da poética, para afirmar o quanto que o eu lírico sofre muito com a perda ou a ausência da amada. Ele tenta sensibilizá-la disso, de forma que ela compadeça-se e que possa voltar para o que eles eram antes, um par.
Bem no intróito do poema, o autor utiliza-se da função conativa, centrada no “tu”, no outro, na tentativa de sensibiliza - lá.

“Ah, se eu te pudesse fazer entender
 Sem teu amor eu não posso viver
 Que sem nós dois o que resta sou eu”

Depois ele utiliza da função emotiva, centrada nele.

“Eu assim tão só
  E eu preciso aprender a ser só”

Logo em seguida, Sergio Valle recorre à linguagem denotativa, outra forma de argumento, mas com mesmo intuito de comover a pessoa amada que o seu sofrimento não é à toa, nasce do melhor sentimento, o amor.

“Ah, o amor
Quando é demais, ao findar leva a paz”

                   No decorrer do texto ele volta para emotiva.

 “Me entreguei sem pensar”

                   E depois volta para conativa. Literalmente, apela, desespera-se, invoca até a figura de Deus.

“Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo”

O arremate é com a função emotiva de forma que sensibilize de vez a amada, mostrando a ela que o eu lírico pode ir até as últimas consequências em nome do amor que lhe aperta peito, que ele pode ir ao ápice, a maior das provas, e das perdas, morrer de amor.

“Eu morro pensando no Nosso amor”

O texto de Sergio Valle é lírico e belíssimo. Faz-nos por instantes lembrarmo-nos dos sentimentos exacerbados dos românticos da segunda geração. A ideia do escapismo, desconsideração da realidade, e a visão da solução dos problemas sendo a morte; a ideia ratificada da solidão, a dilatação de seus sentimentos como se o seu fosse sempre o maior e único, isso tudo é vivo no texto. A intensificação do advérbio “tão” amplifica o status de solidão. Não é somente só, é “tão só”, e isso é ser mais do que sozinho. É uma solidão sofrida.

“ Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só”

Preciso aprender a ser só é uma canção do amor triste, sofrido, doloroso e quase incurável. E ela é bela por ser assim, por achar uma água boa e fria, ainda que no fundo do poço. Não é um poema de salvação, de louvor ao amor, antes o contrário, embora seja isso também amor, e quem pode afirmar que se perder de amor também não é bom, não é se encontrar?


Preciso aprender a só ser

O texto de Gil é composto por quatro estrofes, as três primeiras, com quatro versos cada e na última estrofe, sete versos. As rimas que aparecem são, quanto à posição, misturadas, já que algumas são emparelhadas e já outras cruzadas; tonicidade, aguda ou feminina, grave ou masculina; sonoridade, perfeita; e por final, valor, pobres e ricas: 

“É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer”

“É tanta coisa que eu fico sem jeito
  Sou eu sozinho e esse nó no peito”

Ecos também são encontrados, é uma marca, como já mencionado antes, dos poemas modernos.

“O que cantar, como andar, onde ir”

 “É só do coração dizer não quando a mente”

A metáfora, figura própria dos textos poéticos, além da forma usual, aparece em forma de personificação.

“Sou eu sozinho e esse nó no peito”
                                  
“É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer”
                        Personificação

A função poética está em todo o texto, fazendo-o diferente, próprio para o deleite de ser ouvido em forma de canção. Na composição de Gil, nessa especificamente, a melodia fala muito com a letra, relacionam-se harmoniosamente, casam-se, de forma que os possíveis significados da letra salientam-se decisivamente ao serem cantados juntos.
Outra função que percebemos, e de forma enfática, é a conativa. Nas quatro estrofes primeiras, centra-se no ouvinte, no leitor, no público, dirigindo-se diretamente a ele através de um substantivo vago, indefinido, indeterminado, “gente”.

“Sabe, gente”

O autor recorre à emotiva, subjetiva em poucos versos

“Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder”

“Eu sei que no fundo o problema é só da gente”

Ao contrário do texto de Sergio Valle, o eu lírico criado por Gil não tenta comover nenhuma amada, ele dirige-se a um público.  Enfoca coisas práticas da vida, ou sugere, e isso é percebido quando o autor faz uso dos verbos, remetendo a ações, “cantar, andar, ir, dizer, calar e querer”. 

Não sei julgar se bom ou ruim, mas quando nesse texto o eu lírico é emotivo, ele tenta se resguardar de suas emoções. Por serem subjetivas, entendo assim, próprias do seu “eu” e os outros, “gente”, não participarem de sua dor, por que cada um tem a sua, carrega-a individualmente. Ele, eu lírico, não a expõe, não escancara a sua dor, ou tonifica como no texto de Sergio Valle, antes, guarda-a para si, para que ele a resolva sozinho. Não dramatiza como sendo sua dor única e maior que a de todos.   

“Sou eu sozinho e esse nó no peito
                                       Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder”

                                      “Eu sei que no fundo o problema é só da gente”

Ao contrário da composição dos Valle, Gil afirma a razão, o controle das emoções exacerbadas, a não dramatização de sentimentos tão comuns a todos. “Só ser” conspira a favor da vida, a favor da vida que segue, se ergue sem se entregar a qualquer emoção. Preciso aprender a só ser é uma canção anti-fossa, sem desprezar, é claro, o aprendizado que se tem nos momentos difíceis.    

As composições aqui revisadas descartam qualquer espécie de análise para que se perceba a poesia e o teor lírico presente nelas. E creio que de novo nesse olhar sobre elas, pouca novidade há. As duas composições existem e permanecem sem que uma dependa musicalmente da outra. Ambas tem vidas próprias, embora uma veia musical as uma. O traço de intertextualidade é presente, a paráfrase inicial as aproxima, no entanto, cada qual segue seu rumo próprio, emocionando, tocando, comovendo e erguendo cada ouvinte/leitor da boa arte.         


Preciso aprender a só ser
(Gilberto Gil) 

Sabe, gente
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer

Sabe,  gente
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder

Sabe,  gente
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer

E quando escutar um samba-canção
Assim como
Eu Preciso Aprender a Ser Só
Reagir
E ouvir
O coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser"


Preciso Aprender A Ser Só
    (Marcos e Paulo Sergio Valle)

Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
Que sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou
Ah, o amor
Quando é demais, ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem é tão triste
Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor


REFERÊNCIA

11/01/2012





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Carol e Jorge



Aparentava não mais que 40. Era negra, forte, não era bonita. Melhor, não estava dentro dos padrões, hoje, estabelecidos de beleza. Tinha cabelos crespos, típicos da raça negra, e não muito grandes. Mantinha-os sempre amarrados, ou, quando não, em tocas coloridas. Mas ao contrário do que a maioria achava, ela sentia-se muito feliz, bonita, não, na verdade, sentia-se linda. Dizia-se, lembrando um compositor popular: “sentir é questão de pele e amor é tudo que move”.
 Se não bastasse sua felicidade íntima, mesmo com um corpo gordinho e um rosto diferente, para incômodo dos vizinhos, ela, ainda, namorava à porta, coisa rara nos tempos de hoje, e, mais do que isso, seu namorado era um homem branco, bonito e bem sucedido.
Quando os vizinhos viam Jorge chegando, estacionando o carro novinho à porta de Carol, uns entravam em casa, recolhiam-se, e cerravam as portas. Outros já faziam o inverso. Saiam para ver ou rever o que os seus olhos pareciam lhe enganar. E deliciavam-se, ou perturbavam-se com a cena: o namorado, apaixonado, descendo do carro, fechava a porta, acionava o alarme. Já na calçada, parecia que esquecera algo, voltava em passos corridos, desacionava o alarme, colhia do banco traseiro um ramalhete de orquídeas, aspirava-as, e, enfim, refazia todo o mecânico processo até bater palmas, chamando Carol. 
As pessoas, passando na rua, quando viam a cena amorosa que, ao contrário de outros tempos, embora, como outrora, fosse à porta, diferenciava-se em mãos, gestos, toques e bocas, estranhavam. Pareciam mesmo não acreditar. 
A contra gosto de muitos, eles pareciam se amar. Não era à toa o cuidado com que Jorge acolhia as mãos de Carol, o olhar carinhoso e curioso que lhe estendia em conversas até mesmo fúteis. As flores que ele trazia-lhe, a maneira com que se levantava, quando ela também se erguia para pegar uma água, por exemplo, parecia um amor de outros tempos, com outros personagens. O amor tinha e tem desígnios indomáveis e nem todo mundo tem olho para vê-lo, como se deve, e, nem ouvido educado para ouvi-lo. Suas melodias para alguns destoam, são dissonantes incompatíveis às harmonias do dia a dia.
Aos dois, o fato de serem observados, com olhos até mesmo maldosos, pouco os importava. Talvez, nem ele e nem ela atentassem-se para o que despertavam em outros. Viviam, como todos os amantes, em uma redoma de amor e afetos. Os outros eram apenas meros coadjuvantes que só apareciam para resolução de coisas meramente práticas, materiais e frias, contudo necessárias.
Mas o que muito incomodava, em particular, a um vizinho de Carol que morava defronte a sua casa, isso porque em outros tempos ela confessara seu amor a ele, e, na oportunidade fora humilhada, pelo simples fato de somente gostar dele, era o que ela sussurra ao ouvido de seu amante. Pois quando passava das dez o namoro ganhava mais viço e força. As mãos de Jorge tornavam-se hábeis e Carol beijava-o, beijava-o e beijava-o loucamente, e corria ao seu pescoço, e parecia desfiar aos ouvidos seus frases e frases em forma de canções que ninguém sabia.
 E Jorge, em delícia com a vida, pronunciava baixinho “sentir é questão de pele e amor... o amor...”.  

                                            Valdemir Guimarães     

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012

                       


                                                       
                                                                 Ano novo

                                     Como se surgisse uma figura de dentro do ovo
                                     Ele vem certo para possibilidades mil
                                                              céu aberto em cores
                                                   é cinza, vermelho e azul anil
                                                              
                                                                      (Valdemir Guimarães