Nasci
numa noite de sábado, mês de março e era 20 no calendário. O que eu não sabia
era que além do meu inicio de vida, de noite, era também inicio de outono.
Roberto
Carlos, dito “nosso rei”, fala, em sua bela canção “Folhas de outono”, das
folhas que caem como se fossem amores que se vão. Na canção, um amor parte e
deixa aquele vácuo da saudade, da ausência, da possibilidade da volta. Lendo
depois, em sites de fácil acesso, encontrei um outono que nunca ouvira falar.
Pois para nós nordestinos, piauienses ou maranhense do Codó, parece-nos haver
apenas duas estações, verão, e bota verão, depois inverno. E o outono, o não
falado, ele, no entanto, dura, passa, perpassa-nos de março a junho, planamos
nele sem nos darmos conta ou sem contar que nos damos a ele: a maturação.
Se
eu disser em um poema de última hora ou numa crônica quiçá de prontidão que
leio ou consulto alguma coisa relacionada ao tempo – quando digo tempo,
refiro-me as suas estações – e ao espírito, como cartomancia, quiromancia,
tarô, numerologia, ou coisa parecida, certamente estarei mentindo. Não é que eu
não acredite nos astros e estações e o poder que esses têm sobre nosso
temperamento e corpos, haja vista o ondular do mar e suas marés, indo e vindo,
nessa relação íntima e contínua com a lua, ou o florescer e o dissipar do dia.
O fato é que minha fé, depositei em outros gestos, outro Astro, nesse me acho. No
entanto, revendo o calendário, o folhetim que aqui lerdo e amarelo se abre sobre
essa mesa, esquecendo o destempero do dia e suas circunstâncias, faço-me outono.
E nos que passam, além da vitrine e móveis, vejo invernos, primaveras e verões.
Concluo que eu já estive nessas estações.
Agora,
completando mais uma primavera, neste março que não tem mais fim, pensando em
meus filhos, que são dois, e um amor, lá na cidade do sol, o peito com aquele
vácuo da saudade, lembro-me da canção de Roberto e o parafraseio nesse outono “as
folhas e a chuva vão caindo e eu choro mansinho.”
Valdemir
Guimarães