domingo, 9 de abril de 2017

Ondas elétricas

A minha voz em uma transmissão bidirecional viaja.
Sai desse aparelho meu sussurro, já que passa da meia noite,
e longe em sinais elétricos, em ondas navega até Buriticupu.
Como se fosse além do mar, do mar da distância
Você, já recolhida, ouve-me.
Talvez até fantasie a minha presença ao teu lado,
e   s   p   a   r   r   a   m   a   d   o 
                 em tua cama.
Se o amor reside em atos incomuns, penso que ele
Por acaso está aí, quando cansada, pede-me para prolongar uma história já sem fim
e mesmo depois de ouvir apenas teu ressonar
insisto pensando que talvez em sonho você me ouça
e entenda a ternura que daqui agora em ondas elétricas viaja pra te encontrar.


Valdemir Guimarães                                                                                          

segunda-feira, 3 de abril de 2017

As folhas de outono



Nasci numa noite de sábado, mês de março e era 20 no calendário. O que eu não sabia era que além do meu inicio de vida, de noite, era também inicio de outono. 
Roberto Carlos, dito “nosso rei”, fala, em sua bela canção “Folhas de outono”, das folhas que caem como se fossem amores que se vão. Na canção, um amor parte e deixa aquele vácuo da saudade, da ausência, da possibilidade da volta. Lendo depois, em sites de fácil acesso, encontrei um outono que nunca ouvira falar. Pois para nós nordestinos, piauienses ou maranhense do Codó, parece-nos haver apenas duas estações, verão, e bota verão, depois inverno. E o outono, o não falado, ele, no entanto, dura, passa, perpassa-nos de março a junho, planamos nele sem nos darmos conta ou sem contar que nos damos a ele: a maturação.
Se eu disser em um poema de última hora ou numa crônica quiçá de prontidão que leio ou consulto alguma coisa relacionada ao tempo – quando digo tempo, refiro-me as suas estações – e ao espírito, como cartomancia, quiromancia, tarô, numerologia, ou coisa parecida, certamente estarei mentindo. Não é que eu não acredite nos astros e estações e o poder que esses têm sobre nosso temperamento e corpos, haja vista o ondular do mar e suas marés, indo e vindo, nessa relação íntima e contínua com a lua, ou o florescer e o dissipar do dia. O fato é que minha fé, depositei em outros gestos, outro Astro, nesse me acho. No entanto, revendo o calendário, o folhetim que aqui lerdo e amarelo se abre sobre essa mesa, esquecendo o destempero do dia e suas circunstâncias, faço-me outono. E nos que passam, além da vitrine e móveis, vejo invernos, primaveras e verões. Concluo que eu já estive nessas estações.
Agora, completando mais uma primavera, neste março que não tem mais fim, pensando em meus filhos, que são dois, e um amor, lá na cidade do sol, o peito com aquele vácuo da saudade, lembro-me da canção de Roberto e o parafraseio nesse outono “as folhas e a chuva vão caindo e eu choro mansinho.”

                    


   Valdemir Guimarães